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Na unidade de Neonatologia do Hospital de Gaia luta-se pela vida e acalmam-se os pais

LUSA
17-11-2019 18:41h

Pelos corredores da Unidade de Neonatologia do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia e Espinho passam cerca de 300 bebés por ano e, ali, além de se "lutar pela vida", acalmam-se as "inquietudes" dos pais dos “pequenos heróis".

Passaram 29 anos desde que a Unidade de Neonatologia do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia e Espinho (CHVNG/E) se tornou a "primeira casa" de bebés que nascem abaixo das 37 semanas gestacionais.

Desde então, pelas três salas de cuidados intensivos já passaram mais de oito mil recém-nascidos, sendo que, na última década, estas salas foram também "o abrigo" de 400 grandes prematuros (recém-nascidos com menos de 32 semanas de gestação).

Rita Pereira, de 21 anos, já não entra para estas contas. Mas foi, até há cerca de dois anos, a "bebé mais pequena" a dar entrada naquela unidade. Rita nasceu às 23 semanas e cinco dias de gestação.

Nada fazia prever que o nascimento de Rita fosse tão prematuro, contou à Lusa a mãe da jovem, Ilídia Pereira, adiantando que foi uma "rutura prematura das membranas" que ditou o parto.

"Não estava ciente das consequências que poderia ter e, no fundo, só queria que ela sobrevivesse, apesar de dizerem que ia ficar com sequelas e problemas gravíssimos", afirmou a mãe da jovem.

Apesar dos prognósticos, Rita conseguiu "agarrar-se à vida" e hoje, pelos corredores e salas da neonatologia é o "rosto da esperança”.

"Costumo vir aqui falar com os pais e ver os bebés. A parte mais importante é, além de dar esperança, fazê-los entender que não se podem distanciar dos filhos", afirmou a jovem.

Se para Ilídia não faltou, durante o período de internamento, um "forte apoio", não só clínico, mas também "humano", tal não aconteceu com Joana Pacheco, mãe de gémeos.

Joana sabia que a gravidez "era de risco", mas nada fazia prever que Mariana e Miguel, que agora têm três anos, nascessem às 30 semanas de gestação, no Hospital de São João, onde permaneceram 10 dias internados.

"O hospital de São João fica muito aquém na parte humana, que às vezes é tão ou mais importante do que outras coisas", contou à Lusa, adiantando que "tudo mudou" no dia em que entrou na unidade neonatal de Gaia.

"Aprendi muita coisa aqui. Durante os 36 dias que eles estiveram internados, os médicos foram mais importantes do que os nossos amigos, pais ou família", realçou.

Todo o "apoio" que recebeu dos médicos e enfermeiros, levaram Joana a criar o grupo “Heróis de Neonatologia do CHVNG/E" na rede social 'Facebook’.

O grupo, que conta já com 615 membros, visa partilhar com a equipa técnica o crescimento destes pequenos heróis.

Apesar dos gémeos Mariana e Miguel terem tido alguns "percalços", como infeções e bactérias, Joana conseguiu levar os dois, no mesmo dia, para casa.

O mesmo não aconteceu com Ana Luísa, a mãe dos trigémeos João, Luísa e António. À semelhança das outras mães, Ana Luísa também não adivinhava que os trigémeos iam nascer às 27 semanas e dois dias de gestação.

"No início acho que somos um bocado inocentes. Sabemos da prematuridade, mas não sabemos o que é que vem atrás dela. Este é um caminho longo, feliz e doloroso", salientou.

Apesar de ter conseguido levar Luísa para casa quando esta "ia fazer três meses" e António "15 dias" depois, tal não aconteceu com João. Por três vezes que Ana Luísa e o marido foram chamados para se despedirem do filho.

"Parecia que a felicidade nunca estava completa", afirmou Ana Luísa, acrescentando, contudo, que os "sustos" nunca impediram João de se "agarrar à vida".

"O João agarrou-se muito à vida e saiu passado três meses e uma semana dos irmãos", recordou.

Em declarações à Lusa, António Vinhas, médico da unidade, afirmou que apesar dos “desafios inerentes” à parte técnica e tratamento dos prematuros, o maior “desafio é tratar dos pais”.

“No fundo, eles estão a experienciar um dos melhores e piores momentos da vida deles. É uma ambiguidade que cria ansiedade e stress. Por isso, aqui dizemos sempre que isto não é um ‘sprint’, é uma maratona. Nem sempre podemos ir ao dia-a-dia, porque muitas das vezes a luta destes super-heróis é hora a hora, ou minuto a minuto”, concluiu.

Para celebrar o Dia Mundial da Prematuridade e a “garra” destes “pequenos heróis”, a unidade de neonatologia do CHVNG/E vai, em colaboração com a Câmara Municipal de Gaia, organizar este domingo um evento na biblioteca municipal de Gaia.

Na iniciativa, que conta com a presença de vários "super-heróis", vai ser também apresentado um livro de fotografias de 23 prematuros.

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