Cerca de 130 mil pessoas beneficiaram até junho de assistência de saúde prestada por parceiros humanitários em resposta às cheias que afetaram o sul e centro de Moçambique no início de 2026, revelou o ‘Cluster’ da Saúde de Moçambique.
"Até à data, mais de 150 mil intervenções foram realizadas pelos parceiros do Cluster da Saúde e estima-se que 130 mil pessoas tenham sido alcançadas através da resposta de saúde nas áreas afetadas", refere um relatório de balanço de meio ano da organização, consultada hoje pela Lusa.
Segundo o documento, cerca de 105 mil dos beneficiários encontram-se na província de Gaza, sul de Moçambique, a mais afetada pelas inundações, onde decorrem operações de assistência sanitária em comunidades atingidas pela emergência.
As cheias resultaram de chuvas intensas que começaram no final de dezembro de 2025 e se prolongaram por janeiro de 2026, levando o Governo moçambicano a declarar alerta vermelho nacional e estado de emergência em 16 de janeiro.
Segundo o ‘Cluster’, a crise afetou entre 600 mil e 700 mil pessoas numa fase inicial, podendo alcançar 1,1 milhão devido à persistência das chuvas e às descargas controladas de barragens na África do Sul.
A província de Gaza concentrou cerca de 75% da população afetada, mas impactos significativos também foram registados nas províncias de Maputo, Sofala e Zambézia, com danos em infraestruturas de transporte e interrupções no acesso aos serviços de saúde.
Em resposta à emergência, os parceiros do ‘Cluster’ da Saúde atuaram em 18 distritos das províncias de Gaza, Sofala e Maputo, recorrendo sobretudo a brigadas móveis para garantir assistência às populações mais isoladas.
"A principal modalidade de prestação de serviços tem sido, e continua a ser, as brigadas móveis, coordenadas pela Direção Provincial de Saúde", refere o documento.
O relatório acrescenta que "esta abordagem tem sido essencial para restaurar o acesso aos serviços de saúde em áreas remotas e afetadas pelas cheias, onde os danos nas infraestruturas, as condições das estradas e o deslocamento das populações interromperam a prestação regular de serviços".
Até ao final de junho, "pelo menos 701 comunidades tinham recebido o apoio das brigadas móveis", que prestam consultas gerais, vacinação infantil, cuidados de saúde mental, serviços de saúde sexual e reprodutiva e ações de promoção da saúde.
Apesar da estabilização gradual da situação, o ‘Cluster’ da Saúde alerta para riscos sanitários persistentes: "Os riscos para a saúde permanecem elevados, particularmente os associados a doenças de origem hídrica, como a cólera e a diarreia aquosa aguda", assinala o relatório.
Segundo o documento, alguns dos distritos mais afetados, incluindo Bilene, Chókwè, Chongoene e Chibuto, registam atualmente números de casos de diarreia duas ou três vezes superiores aos observados no mesmo período de 2025. A situação da malária também se agravou na província de Gaza.
"Os casos de malária na província de Gaza quase triplicaram em comparação com o mesmo período de 2025, representando um aumento de 176%", refere o boletim.
Embora a maioria das famílias deslocadas tenha regressado às suas comunidades e a maioria dos centros de acomodação tenha encerrado, cerca de 26 unidades sanitárias continuam fechadas devido a danos estruturais, perda de equipamentos ou preocupações de segurança.
Para o segundo semestre de 2026, os parceiros humanitários preveem manter brigadas móveis em pelo menos dez distritos afetados, apoiar a reabilitação de infraestruturas de saúde e reforçar a formação de profissionais e líderes comunitários.
O documento alerta ainda que a escala das necessidades remanescentes é considerável e "sem recursos adicionais, o setor da saúde terá dificuldades para restaurar totalmente os serviços, reconstruir as infraestruturas danificadas e garantir que todas as populações afetadas recebam os cuidados e apoio necessários para uma recuperação segura e sustentável".