O Sindicato Nacional dos Médicos de Angola (Sinmea) propôs ao Presidente angolano, João Lourenço, que troque o investimento num Centro Nacional de Trauma em Luanda pela formação de médicos especialistas para beneficiar todo o país.
Numa carta dirigida a João Lourenço, o Sinmea apresentou o seu parecer técnico sobre o Despacho Presidencial que autorizou a despesa de 297,5 milhões de dólares (256,6 milhões de euros) para a construção do Centro Nacional de Trauma na capital angolana.
Segundo o Sinmea, a iniciativa é de “elevada relevância”, pelo seu impacto real na redução da mortalidade por trauma, que em Angola decorre essencialmente de acidentes de viação, a segunda causa de mortes no país, depois da malária, e na origem de um elevado número de feridos.
Segundo dados da Direção de Trânsito e Segurança Rodoviária, em março passado, o país registou 206 mortos e 1.010 feridos, de um total de 765 acidentes.
O sindicato sublinha que o trauma é uma condição cuja resposta depende muito do fator tempo e “a sobrevivência não depende apenas da qualidade do atendimento, mas sobretudo da rapidez com que ele é prestado”.
“Neste contexto, a concentração de recursos numa única infraestrutura, localizada em Luanda, levanta sérias preocupações de equidade, eficiência e alcance territorial”, lê-se na carta.
Para o Sinmea, o montante autorizado para a construção da referida infraestrutura sustentaria a contratação de 150 especialistas estrangeiros, por quatro anos, com um pagamento mensal de 20.000 dólares (17.250 euros), cujo total ao fim do contrato totalizaria 144 milhões de dólares (124,2 milhões de euros).
“Cada um deles teria a missão obrigatória de formar cinco médicos, nas áreas de ortopedia, cirurgia geral, neurocirurgia, intensivista e etc., ao cabo teríamos 750 novos especialistas nacionais em todo o país, onde cada uma das 21 províncias teria aproximadamente 35 novos médicos qualificados, segundo as necessidades”, é sugerido na carta.
De acordo com o Sinmea, ao longo dos dois mandatos do Presidente da República foram feitos avultados investimentos na construção de grandes infraestruturas hospitalares em várias províncias, mas “parte significativa dessas unidades permanece aquém do seu potencial”, pela escassez de recursos humanos qualificados e pela ausência de um sistema eficaz de manutenção.
“Esta realidade levanta uma questão incontornável. Faz sentido continuar a erguer novas infraestruturas quando as existentes não conseguem responder plenamente às necessidades da população?”, questionam os médicos, propondo que o remanescente do investimento poderia servir para equipar unidades de resposta rápida em pontos estratégicos das Estradas Nacionais e nos hospitais gerais das 21 províncias, reduzindo a pressão sobre Luanda.
Os médicos apelaram ao Presidente angolano “a revisão estratégica da alocação destes recursos, privilegiando um modelo descentralizado, baseado no fortalecimento do capital humano e na criação de uma rede nacional e eficiente”, solicitando uma audiência para melhor esclarecimento do exposto.
Em conferência de imprensa, o secretário-geral do Sinmea, Miguel Sebastião, disse esperar que a carta tenha a devida atenção e que o Presidente da República reflita sobre a proposta apresentada e entenda que o sindicato não está apenas para convocar greves, mas para indicar medidas de soluções.
Já o presidente do Sinmea, Adriano Manuel, apontou a necessidade da criação de um Plano Sanitário Nacional para o país, considerando que, para a questão dos traumas, as unidades militares dotadas de postos médicos podem ser equipadas para os primeiros socorros às vítimas de acidentes.
“Podíamos aproveitar as unidades militares, que estão no país, equipá-las, e os militares serem os primeiros a socorrer quem acidentar, mas não fizemos isso”, lamentou.