Joana Afonso e Rute Matias tocam música nos hospitais para ajudar crianças e idosos a esquecerem que são doentes e sentirem-se seres humanos. Consigo levam “o dobro” daquilo que dão, mas no final não querem palmas.
“O projeto Música nos Hospitais é um projeto de humanização dos cuidados de saúde (…). Nós vimos aqui para que as pessoas que aqui estão, sejam utentes, sejam acompanhantes, cuidadores, sejam profissionais de saúde, médicos, enfermeiros, auxiliares, se lembrem de que são, acima de tudo, seres humanos”, disse à Lusa Joana Afonso.
Joana é música na associação de solidariedade Música nos Hospitais há oito anos, Rute há 15, contaram à Lusa após uma intervenção na unidade de cuidados paliativos da Clínica São João de Ávila, em Lisboa.
Ambas têm formação musical e as suas principais remunerações não vêm da música, mas encontraram na associação Música nos Hospitais mais do que uma vocação.
Joana trabalha em marketing, Rute é música e contabilista. Joana é formada em flauta transversal, mas também canta e toca guitarra e percussão, Rute aprendeu órgão, mas diz que a voz é o seu principal instrumento.
Na sua atividade, os músicos intervenientes, como lhes chama a associação, trabalham em dupla e circulam pelas unidades de saúde acompanhados de um carrinho com instrumentos musicais, alguns comprados, outros construídos por eles com objetos do dia a dia ou até material hospitalar.
Como explicou Joana, fazem música com um propósito, com uma intenção, e nada daquilo que fazem é previamente combinado.
Quando iniciam uma intervenção, ainda não sabem o que vão encontrar, como vão estar os doentes, pelo que têm de começar num tom neutro, mas consoante o ambiente que encontram vão adaptando a música às pessoas com quem vão interagindo, procurando temas que elas reconheçam e simultaneamente procurando alegrar sem forçar.
“Nós combinamos a primeira música que fazemos (…) e a partir daí é uma incógnita também para nós. E também por isso é um desafio muito engraçado”.
Lidar com o sofrimento daqueles que tentam apoiar pode ser um desafio e os músicos aprendem também a gerir as suas próprias emoções, embora a concentração na música, nos instrumentos, na interação com os doentes ajude a manter o foco.
Ainda assim, Rute admitiu que nos 15 anos que leva a tocar em hospitais teve de se afastar duas vezes para chorar, uma delas quando uma mãe recebeu o diagnóstico de cancro do filho, que estava numa unidade pediátrica.
“Na altura eu também tinha um filho pequeno e aquilo tocou-me muito, foi muito complicado”, disse.
Mas Rute também tem memórias de momentos bonitos.
“Uma vez estávamos a entrar num quarto e disseram-nos ‘não vale a pena entrar porque a senhora já não está, já não reage’. Mas nós, pela dúvida (…) entrámos. Eu cantei uma música dos Madredeus, que era a Andorinha. A senhora esteve todo o tempo sem grande reação. Quando íamos a sair do quarto, ela pôs-se a dizer Andorinhas, Andorinhas. Foi uma coisa muito impactante”.
Joana admitiu que já viu um doente morrer nos cuidados paliativos durante a sua intervenção, mas garantiu que sai sempre “mais realizada do que triste”.
“A vida é mesmo isto, isto é a vida acontecer à nossa frente, é uma inevitabilidade e que nós todos temos que aceitar. E, portanto, poder contribuir para que isso aconteça de forma mais digna, de forma mais humana, é maravilhoso e é um privilégio”, contou.
Para Rute, os músicos levam das intervenções “o dobro” daquilo que dão, mas o ‘feedback’ que recebem vem do olhar das pessoas para quem tocam, da interação com elas.
Ao contrário do que acontece quando um músico atua num palco, em que toca música para si, na esperança de que os outros gostem, no hospital os músicos fazem “mesmo música para oferecer”, explicou Joana.
“Os nossos egos aqui não servem de nada porque nós estamos a dar, estamos a partilhar experiências, a partilhar músicas”, concordou Rute.
Da mesma forma, as palmas não são bem-vindas neste contexto: “Aqui, se houver palmas, alguma coisa correu menos bem”, disse Joana.
“Nós somos só um veículo aqui. Nós somos só o veículo que permite às pessoas interagirem umas com as outras e com a música e com as suas próprias emoções. Portanto, as palmas aqui não fazem tanto sentido”.
Ao longo das duas horas de intervenção de Joana e Rute na Clínica São João de Ávila não se ouviram quaisquer palmas, lembrou Joana: “Portanto, correu bem”.