DIRETO
SAÚDE QUE SE VÊ

Prémio Maria de Sousa distingue trabalhos sobre cancro, artrite, Alzheimer, cérebro e feridas

LUSA
06-11-2026 06:00h

O Prémio Maria de Sousa distingue este ano trabalhos sobre pensos antimicrobianos para feridas, cancro do pulmão, artrite, doença de Alzheimer e funcionamento do cérebro na aprendizagem, anunciaram hoje as entidades promotoras.

Luísa Fialho (Universidade do Porto), Sara Isabel Fernandes (Instituto de Biotecnologia da Flandres), Simão Teixeira (Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia), Tatiana Morais e Ana Verónica Domingues (Universidade do Minho) são os cientistas premiados, indicaram em comunicado conjunto a Fundação Bial, que financia a distinção, e a Ordem dos Médicos, que designa os membros do júri, a par da Bial.

Cada um dos premiados vai receber até 30 mil euros e fazer um estágio em centros de investigação em Portugal, Espanha, França e Alemanha.

Atribuído anualmente, desde 2021, o Prémio Maria de Sousa homenageia no nome a imunologista Maria de Sousa (1939-2020) e destina-se a apoiar a investigação em ciências da saúde de jovens cientistas portugueses.

Investigadora no Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto, Luísa Fialho propõe-se desenvolver um penso para feridas na pele com propriedades curativas contra infeções.

A prova de conceito do penso será feita com culturas de bactérias - duas das mais frequentes em feridas - e com células da pele, esclareceu a cientista à Lusa.

Segundo a proposta de trabalho, na ausência de infeção, o penso manterá a sua cor amarela e libertará substâncias antimicrobianas e regeneradoras da pele de forma gradual, acelerando a cicatrização da ferida.

Se a ferida infetar, o penso irá inchar, mudar para cor azul e libertar rapidamente essas substâncias, que, ao contrário dos antibióticos, combatem as bactérias causadoras de infeção em várias frentes.

O estado e a evolução da ferida poderão ser acompanhados pela cor do penso, evitando trocas desnecessárias de penso, ao mesmo tempo que são libertadas substâncias que, de acordo com Luísa Fialho, são uma alternativa promissora e menos dispendiosa aos antibióticos comuns.

Sara Isabel Fernandes, do Instituto de Biotecnologia da Flandres, na Bélgica, verificou, num trabalho anterior, que o cancro da mama que metastiza para o pulmão "recruta e reprograma" determinadas células, as células alveolares tipo 2 (AT2), que normalmente mantêm os pulmões saudáveis, para fornecer certas gorduras, no caso lípidos, que favorecem o crescimento tumoral.

Em ensaios pré-clínicos, a cientista observou que o bloqueio do processo reduziu o crescimento de metástases no pulmão.

Agora, num novo estudo, Sara Isabel Fernandes quer perceber se o mesmo mecanismo, e bloqueio, ocorre no cancro do pulmão primário e mais comum (o chamado cancro do pulmão de não pequenas células) e, se sim, se poderá ser um possível alvo para tratamento de doentes, nomeadamente em estádios mais avançados.

A investigadora vai usar amostras de tumores de doentes com cancro do pulmão e modelos de laboratório.

Tatiana Morais, do Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde da Universidade do Minho, "vai estudar de que forma alterações nos lípidos dos astrócitos, células que ajudam a manter o cérebro a funcionar corretamente, podem contribuir para as alterações que acontecem no cérebro durante a doença de Alzheimer" e, deste modo, identificar possíveis novos marcadores da doença e alvos para tratamentos.

Para isso, a cientista vai monitorizar a atividade elétrica do cérebro, a memória e o comportamento de ratinhos que mimetizam diferentes fases da doença de Alzheimer e analisar lípidos e proteínas presentes nos astrócitos.

Investigadora no mesmo instituto, Ana Verónica Domingues também vai acompanhar a atividade cerebral de ratinhos, mas com outra finalidade: perceber melhor como o cérebro aprende e adapta o comportamento com base na experiência, seja positiva ou negativa.

Em particular, a cientista vai analisar de que forma a dinorfina, um opioide produzido pelo cérebro, pode alterar a comunicação entre as células cerebrais (neurónios) e influenciar a aprendizagem e o comportamento a partir de experiências.

A investigadora vai medir os sinais cerebrais dos roedores quando consomem sacarose (experiência positiva) ou quando levam um pequeno choque (experiência negativa).

O foco de estudo de Simão Teixeira, do Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia, em Braga, é a artrite autoimune, uma doença inflamatória crónica causada pelas defesas do organismo (sistema imunitário) e que provoca a destruição progressiva das articulações, gerando dor.

O investigador vai estudar em laboratório como algumas células imunitárias, no caso os linfócitos T, "reagem a forças mecânicas" e "contribuem para o aparecimento e agravamento" da doença.

Para isso, vai criar uma pequena réplica de uma articulação com impressão 3D de células humanas para analisar os linfócitos T "em condições semelhantes às que se encontram no organismo" e usar pequenas partículas, milhares de vezes mais finas do que um cabelo e controladas à distância por ímanes, para perceber como os linfócitos T reagem a forças físicas, como pressão ou estiramento.

Para Simão Teixeira, o conhecimento produzido poderá ajudar no futuro a produzir tratamentos mais precisos, que atuem apenas nas células imunitárias que desencadeiam a inflamação, reduzindo os efeitos secundários dos tratamentos atuais e melhorando a qualidade de vida dos doentes.

O júri do Prémio Maria de Sousa 2026 voltou a ser presidido pelo neurocientista Rui Costa.

A Fundação Bial, criada em 1994 pela farmacêutica com o mesmo nome em parceria com o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, tem como missão "incentivar o estudo científico do ser humano, tanto do ponto de vista físico como espiritual".

MAIS NOTÍCIAS