A organização humanitária CARE Moçambique alertou hoje que pelo menos 1,84 milhões de moçambicanos podem enfrentar níveis elevados de insegurança alimentar devido à seca associada ao fenómeno El Niño, que ameaça comprometer a próxima campanha agrícola.
Segundo a organização humanitária, as comunidades afetadas pelos recentes eventos climáticos extremos continuam a recuperar de inundações e deslocações e enfrentam agora escassez de alimentos, água e sementes, dispondo de poucos recursos para suportar mais uma época agrícola desfavorável.
"Depois de anos de choques climáticos repetidos, [as comunidades] têm poucos recursos restantes e outra colheita falhada poderá empurrá-las ainda mais para a fome", refere a CARE em comunicado divulgado hoje.
A organização alerta que mulheres e raparigas deverão suportar o maior impacto da crise, enfrentando uma pressão crescente para garantir alimentos, procurar água, cuidar dos filhos e proteger os meios de subsistência familiares.
De acordo com uma avaliação rápida realizada em setembro em 14 comunidades das províncias de Gaza, Inhambane e Nampula, a escassez de água está a obrigar mulheres e raparigas a percorrer distâncias cada vez maiores para obter água, enquanto continuam responsáveis pelas atividades agrícolas e pelos cuidados domésticos.
No estudo são identificados igualmente riscos acrescidos de casamentos prematuros, abandono escolar e agravamento das condições de saúde e dignidade de mulheres e raparigas devido à falta de água e de produtos básicos de higiene.
Segundo a mais recente análise da Integrated Food Security Phase Classification (IPC), citada pela CARE, entre outubro de 2026 e março de 2027 cerca de 1,84 milhões de pessoas deverão enfrentar níveis de insegurança alimentar classificados como de crise ou superiores, enquanto 254 mil poderão atingir níveis de emergência.
A mesma projeção indica que mais de 103.600 crianças menores de cinco anos poderão sofrer de desnutrição aguda, assim como mais de 11.100 mulheres grávidas ou lactantes.
Apesar das previsões, a organização refere que o apoio às comunidades permanece limitado.
Segundo a CARE, 93% das comunidades inquiridas afirmaram não ter recebido qualquer assistência relacionada com a ameaça de seca, apesar das crescentes preocupações com a perda de colheitas, escassez de água e falta de alimentos.
Em Cabo Delgado e em partes da província de Nampula, a organização refere que os efeitos do conflito armado e dos deslocamentos continuam a comprometer a produção agrícola e o acesso a insumos como sementes.
Já nas províncias do sul, sucessivos episódios de seca e cheias destruíram culturas agrícolas e esgotaram as reservas de sementes de muitas famílias.
"Os avisos antecipados são importantes, mas os avisos por si só não colocam sementes na terra nem comida na mesa", afirmou a diretora da CARE Moçambique, Kátia dos Santos Dias, citada no documento.
Segundo a responsável, é necessário reforçar urgentemente o apoio aos agricultores através do acesso a sementes adequadas, fontes de água e assistência imediata às famílias já confrontadas com situações de fome.
A organização apelou aos governos, doadores e parceiros internacionais para intensificarem o apoio às comunidades vulneráveis antes do início da próxima campanha agrícola, defendendo investimentos em agricultura resiliente à seca, acesso fiável à água e apoio específico a mulheres agricultoras e organizações locais.
O fenómeno El Niño, associado ao aquecimento anormal das águas superficiais do oceano Pacífico central e oriental, altera os padrões de precipitação e temperatura em várias regiões do mundo, podendo provocar secas severas e eventos extremos de precipitação.
O Governo moçambicano já alertou para impactos do fenómeno em pelo menos 52 distritos das regiões sul e centro do país e anunciou a preparação de um plano de ação nacional destinado a mitigar os efeitos da seca e da escassez de água.