O representante especial da NATO para o flanco sul disse hoje que a Europa “tem de tomar decisões enormes” se quer ter uma palavra na Defesa, pois atualmente a sua única capacidade militar é a dos seus Estados.
“É a Europa que tem de tomar as medidas necessárias para equilibrar essa balança de responsabilidades [com os Estados Unidos] e assumir grande parte das responsabilidades na Defesa convencional europeia e continuar a contar com o empenho dos Estados Unidos da América”, afirmou Javier Colomina, num debate no Fórum La Toja – Vínculo Atlântico, que hoje terminou em La Toja (O Grove), na província de Pontevedra, na Galiza, Espanha.
Relativamente à ambição de independência da Europa, há que ser realista: “As ameaças pela frente não param enquanto constróis as necessidades de que precisas”, frisou.
O responsável disse estarem em causa “fundamentalmente, decisões políticas e relacionadas com a soberania, uma vez que as indústrias de Defesa estão intimamente ligadas às decisões dos governos”.
“Acredito que será extremamente difícil tomar essas decisões e, portanto, a indústria de defesa norte-americana, por mais que isso não agrade muito aos europeus, continuará a ser absolutamente essencial”, defendeu.
Para Javier Colomina, um “mercado único de 350 milhões de norte-americanos, com um único governo, uma cadeia de comando e uma estrutura de produção unificada, não encontrará rival entre as pelo menos 17 indústrias de Defesa mais ou menos capazes que existem na Europa”.
O também diplomata sustentou que “a pergunta para um milhão [de euros]” é “que país será capaz de assumir uma liderança como a que os Estados Unidos exercem atualmente no âmbito da Aliança Atlântica, de modo a fazer com que todos os países o sigam, pelo menos os europeus”.
Colomina disse que “a saúde da NATO é boa”, mas “é uma NATO diferente. Tomou as decisões que devia tomar, aumentou a sua capacidade de defesa, resposta e dissuasão”.
“Há mais para fazer, mas continuamos a contar com o compromisso dos EUA e dos 31 aliados”, disse.
Colomina considerou que “o momento da decisão dos 5% [meta de investimento na Defesa para os aliados da NATO] abriu oportunidades à Europa, para que a Europa e os seus países fiquem mais fortes”.
“Isso é importante para reforçar a Aliança”, sublinhou.
A União Europeia “reagiu de forma muito positiva na mobilização de recursos financeiros”, mas “há ainda um caminho longo para que o dinheiro se converta em meios militares”.
O ex-presidente de Políticas Públicas na Casa Branca Carlos Díaz afirmou que a postura norte-americana em relação à NATO e à responsabilização militar europeia vai continuar para lá de Donald Trump e extravasar a área da Defesa.
“A postura dos EUA vai continuar muito para lá de Trump. Creio que vai continuar esse pedido de reciprocidade relativamente à Europa, não apenas na área da Defesa. […] Porque é um sentimento profundo do norte-americano que se sente esquecido. Para este cidadão, é importante a reciprocidade na relação, porque a ajuda norte-americana é dinheiro dos contribuintes”, explicou o ex-presidente e diretor de Políticas Públicas na Casa Branca (2017-2021).
Para Carlos Díaz, “Trump quer uma Europa que se possa defender, que inove, que seja líder”.
“Trump sabe que Europa quer. O que não sei é se a Europa sabe que Europa quer”, observou, no debate subordinado ao tema Autonomia e Dependência na Relação Estratégica na 8.ª edição do Fórum, este ano sob o tema Um Mundo em Desordem.
Para Díaz, “o mundo está em desordem, mas não por culpa do presidente Trump”.
“A NATO foi fundamental para os EUA. E Trump sabe disso, mas também sabe que foi importantíssimo para a Europa. Chegamos aos 5% para que a Europa pague pelas suas necessidades de Defesa, em vez de deixar tudo nas mãos dos EUA”, observou.
A Trump “parece-lhe profundamente ofensivo que o mundo não pague pela sua defesa”, disse.
“O tema da reciprocidade é muito importante para ele”, vincou.