O orgulho e o sentido de pertença à profissão são essenciais para proteger bombeiros e polícias do desgaste emocional provocado pela constante exposição a situações de risco, morte e sofrimento, defendeu-se num estudo hoje divulgado.
“Trabalho emocional, identidade profissional e envolvimento no trabalho em forças de socorro portuguesas” é o nome do estudo de Soraia Oliveira, docente do Instituto Superior Miguel Torga (ISMT), em Coimbra.
A investigação envolveu 248 profissionais (148 polícias e 100 bombeiros) e concluiu que os bombeiros apresentam um nível de empenho de 4,7 em seis, contra 3,9 dos polícias.
“Preparar bem polícias e bombeiros para lidarem com o que sentem é tão importante como prepará-los fisicamente”, frisou a investigadora.
Segundo o estudo, “o que mais protege polícias e bombeiros do desgaste do seu trabalho não é a resistência pessoal, nem o autocontrolo, mas o orgulho de pertencerem à profissão”.
O sentido de pertença leva-os “a aguentar a exigência do trabalho, ao ponto de este fator explicar, sozinho, metade das diferenças de empenho registadas entre as duas profissões”, sendo que o orgulho profissional “é mais forte entre os bombeiros do que entre os polícias”.
“O mito de que quem nos protege tem de ter uma resistência de pedra é perigoso”, alertou Soraia Oliveira.
Para a investigadora, “o que segura estas duas categorias profissionais não é aguentarem calados o que sentem, é o orgulho de vestirem a farda e de servirem os outros”, mas “esse orgulho, como qualquer recurso, gasta-se se ninguém cuidar dele”.
Neste âmbito, a investigação deixou orientações quanto às políticas públicas a adotar para polícias e bombeiros, com “propostas concretas e à medida de cada profissão, desde logo um treino específico de resiliência e de inteligência emocional”.
São recomendadas práticas de gestão do stress como o exercício físico e “mindfulness”, e propostos processos de seleção que tenham em conta as exigências emocionais de cada função. No que respeita às chefias, a recomendação é a de que “criem internamente em cada unidade mecanismos de apoio, através dos quais procurar ajuda seja encarado com naturalidade”.
“Preparar bem estes profissionais para lidarem com o que sentem é tão importante como prepará-los fisicamente”, defendeu Soraia Oliveira.
Na sua opinião, “colocar em práticas medidas como as propostas irá resultar em profissionais mais satisfeitos, mais empenhados e menos propensos a abandonar a profissão”.
De acordo com o estudo, os bombeiros associam emoções positivas ao seu trabalho, como “acalmar, dar alento, confortar quem socorrem”. Apesar de muitos deles serem voluntários e terem de conciliar funções de socorro com outro emprego, ”lidam melhor com essa pressão acrescida”.
Os polícias “associam o seu trabalho ao controlo e à contenção, entre a confrontação com o crime e o apoio às suas vítimas”, sendo que “a necessidade de esconder ou de fingir emoções associa-se a uma menor identidade profissional, o que ajuda a explicar o seu menor envolvimento no trabalho”.
Entre os bombeiros, “a exigência de expressar emoções positivas associa-se a uma identidade profissional mais forte e, por essa via, a níveis mais elevados de envolvimento dos seus elementos”.
Soraia Oliveira referiu que “a identidade profissional é a peça-chave”, porque “é ela que liga aquilo que estes profissionais sentem no trabalho ao empenho que depois conseguem manter”.
Há estudos que mostram que polícias e bombeiros enfrentam dos maiores riscos psicológicos entre as profissões de emergência, uma vez que “todos os dias lidam com a morte e com o sofrimento alheio e, com frequência, colocam em risco a própria vida”, o que deixa marcas.
“Não podemos continuar a olhar para estes profissionais como se fossem imunes ao que enfrentam. O que vivem, dia após dia, tem um preço”, realçou a docente.