O financiamento internacional para o combate ao VIH caiu quase 20% no ano passado, alertou hoje a ONU, durante a Conferência Internacional sobre a SIDA no Rio de Janeiro.
A resposta global ao VIH, o vírus que causa a SIDA, está "completamente paralisada" após a maior queda no financiamento em décadas, destacou à agência France-Presse (AFP) a vice-diretora executiva da ONUSIDA, Angeli Achrekar.
"Se não nos unirmos como no passado, veremos um ressurgimento" do VIH, alertou, citando um aumento de novas infeções entre as populações vulneráveis em algumas regiões.
Os Estados Unidos reduziram drasticamente o seu orçamento de ajuda internacional após o regresso de Donald Trump à Casa Branca no ano passado, levando vários países europeus, incluindo a França, a Alemanha e o Reino Unido, a seguir o exemplo.
Só até 2025, o financiamento global para a prevenção e tratamento do VIH nos países de baixo e médio rendimento diminuiu 18%, segundo um relatório do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre VIH/SIDA (ONUSIDA), divulgado na 26.ª Conferência Internacional sobre a SIDA.
Desde 2011, o financiamento dos países europeus para a prevenção e tratamento do VIH diminuiu 58%, pode ler-se no relatório. Entretanto, os Estados Unidos aumentaram a sua participação no financiamento global.
Apesar dos drásticos cortes implementados pela administração Trump, os Estados Unidos ainda representam 74% do financiamento público destinado à prevenção e tratamento do VIH, indicaram os autores do relatório.
Os países em desenvolvimento mais afetados pelo VIH, muitos dos quais se encontram na África subsariana, estão a intensificar os seus próprios esforços, salientou Achrekar.
Mas muitos países de baixo rendimento dependem da ajuda oficial ao desenvolvimento para até 90% do financiamento das suas ações de combate ao VIH.
Os especialistas realçaram que ainda é muito cedo para avaliar completamente o impacto dos cortes no financiamento.
Embora o número de novas infeções por VIH e de mortes relacionadas com a SIDA tenha descido em 2025 para o nível mais baixo em mais de 30 anos, as novas infeções aumentaram em 21 países, observaram os autores do relatório.
No final de junho, a ONU estabeleceu objetivos para acabar com a SIDA como uma ameaça à saúde pública até 2030, incluindo garantir que 20 milhões de pessoas têm acesso a medicamentos antirretrovirais, que previnem a propagação do VIH.
A organização alertou no relatório, no entanto, que no ano passado quase metade das crianças que vivem com VIH não tiveram acesso a estes tratamentos, descritos como inovadores.
Achrekar pediu às empresas farmacêuticas que os tornem "acessíveis e acessíveis a todos".
Na semana passada, o grupo farmacêutico norte-americano Merck anunciou que tinha chegado a acordos que permitem a alguns fabricantes em África e na Índia vender versões genéricas do seu comprimido preventivo mensal, o alimatravir, que ainda está em fase de ensaios clínicos.
Por sua vez, a organização não-governamental (ONG) os Médicos Sem Fronteiras (MSF) pediram à farmacêutica norte-americana Gilead que disponibilize o lenacapavir em todos os países de baixo e médio rendimento.
Este tratamento injetável é considerado um grande avanço, uma vez que apenas necessita de ser administrado duas vezes por ano.
Atualmente, cerca de 41 milhões de pessoas vivem com o VIH, o vírus que provoca a SIDA, embora se estime que cerca de cinco milhões desconheçam o seu estado serológico.
Desde o aparecimento do vírus, há quatro décadas, cerca de 44,2 milhões de pessoas morreram na sequência de doenças relacionadas com a SIDA, tornando-se numa das maiores crises de saúde do último meio século.