O diretor do Serviço de Psiquiatria e Saúde Mental da Unidade Local de Saúde (ULS) da Região de Leiria destacou a capacidade de resiliência da população e alertou para a ansiedade ambiental na sequência da depressão Kristin.
“O impacto foi grande e continua ainda a repercutir-se e a observar-se nas consultas diariamente, embora, felizmente, a capacidade de resiliência e capacidade de adaptação das pessoas, de uma forma geral, é bastante grande e isso também permite que as coisas se vão ultrapassando”, afirmou Cláudio Laureano, antecipando que a ansiedade ambiental vai “continuar a manifestar-se no futuro”.
Notando que toda a área de influência da ULS foi afetada pelo mau tempo, Cláudio Laureano adiantou que aos doentes que o serviço tinha juntaram-se outros, sendo que “muito deles sofreram o impacto da tempestade”.
“Além disso, a generalidade dos profissionais de saúde que trabalha na ULS e, mesmo no nosso serviço, reside também na zona e vivenciou aquele evento”, observou, para assinalar ser “essencial não descurar o cuidado de quem cuida”.
O médico psiquiatra explicou que as principais consequências para a saúde mental de uma situação como a depressão Kristin, que na madrugada de 28 de janeiro atingiu gravemente a região de Leiria, passa pelo desenvolvimento de ansiedade ambiental.
“[Há] medo sempre que, novamente, vêm chuvas mais intensas, ventos mais fortes, sempre que se ouvem barulhos durante a noite que fazem relembrar o que se passou naquela noite”, o que acaba “por potenciar ou voltar a desencadear essa ansiedade, uma vez que a tempestade acabou por ser, de facto, uma experiência traumática”, sustentou.
Cláudio Laureano referiu também “algum sentimento de impotência e mesmo de vulnerabilidade”, ou a “sensação de perda de controlo sobre o ambiente e sobre a segurança da própria casa”, o que gera “estados de ansiedade que, às vezes, podem ser bastante significativos e incapacitantes”.
Outro aspeto está relacionado com a perturbação da rotina.
“Os dias, as semanas ou até os meses que se seguiram à tempestade tiveram alterações significativas na vida diária de muitas pessoas, devido à destruição de estradas, das casas, do local de trabalho, situações que ainda hoje, muitas delas, não estão recuperadas. A própria paisagem mudou substancialmente, sobretudo em algumas zonas”, continuou.
O médico indicou que “não é preciso ir para as zonas de floresta” para ver a mudança da paisagem, porque ao “nível da cidade há alterações”, o que “acaba por agravar todo o stress”.
O diretor do serviço recordou ainda que há pessoas que estiveram durante muito tempo sem eletricidade, sem água e “ainda hoje há pessoas sem comunicações”.
“Estes fatores condicionaram ainda um aumento adicional do stress que, obviamente, em pessoas que já tivessem algum histórico de ansiedade, tem o potencial de ter um impacto ainda maior”, declarou.
Por outro lado, reconheceu que pessoas que “estivessem a desenvolver quadros” de ansiedade e que “ainda não tivesse havido um certo gatilho que ‘ajudasse’ a desencadear uma evolução mais desfavorável, naturalmente que esta situação foi a ‘tempestade perfeita’”.
O psiquiatra esclareceu que algumas pessoas “acabam por se adaptar ou recuperar da situação com mais facilidade, outras acabaram por desenvolver sentimentos de culpa, de medo, de ansiedade, de insegurança, de desânimo, de revolta, de raiva, ficando muitas também com uma hipervigilância muito mais aumentada, com uma preocupação excessiva sobre o futuro”.
“Essas reações que não deixam de, até determinado nível, ser normais numa fase inicial, tendem a reduzir de frequência e de intensidade ao longo do tempo, permitindo uma progressiva adaptação”, disse, ressalvando que “este sucesso está relacionado com a extensão da destruição que foi causada pelo desastre” nessa pessoa e nas que lhe são próximas ou nos seus bens e local de trabalho.
Segundo o diretor, “os recursos psicológicos individuais e familiares que a pessoa tem também condicionam” a evolução.
Contudo, pessoas que “continuam a sentir durante um período de tempo prolongado, e de uma forma intensa”, alguma tensão, ansiedade, dificuldades em dormir ou necessidade excessiva de dormir, alterações do apetite, incapacidade de fazer atividades do dia-a-dia, necessidade de aumento do consumo de bebidas alcoólicas ou de tabaco, é importante que “procurem ajuda junto dos profissionais de saúde”, acrescentou Cláudio Laureano.
A área de influência da ULS da Região de Leiria corresponde aos concelhos de Alcobaça, Batalha, Leiria, Marinha Grande, Nazaré, Pombal e Porto de Mós, no distrito de Leiria, e Ourém, distrito de Santarém. Compreende três hospitais (Leiria, Pombal e Alcobaça) e 10 centros de saúde com as respetivas unidades funcionais.