Investigadores do Porto e de Coimbra concluíram que a auscultação pulmonar através de ‘smartphone’, combinada com inteligência artificial (IA), pode constituir uma alternativa para a telemonitorização respiratória pediátrica e que ao mesmo tempo empodera o utente, foi hoje revelado.
A ideia, liderada por cientistas da unidade de investigação RISE-Health e da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), parte da convicção de que “a ampla disponibilidade de ‘smartphones’ equipados com microfones de alta qualidade oferece uma solução prática, não invasiva e escalável para a gravação de sons respiratórios em ambientes clínicos e domésticos”.
Em causa pode estar “a possibilidade de eliminar a necessidade de dispositivos adicionais e permitir a recolha de dados através de uma única ferramenta familiar”.
À Lusa, a investigadora Cristina Jácome (RISE-Health/FMUP) acrescentou o objetivo de dar ao utente, neste caso aos pais e educadores, “mais poder” através de uma ferramenta que pode até estar a descarregar diretamente para os aparelhos dos clínicos, “ajudando-os nas melhores decisões de saúde para estas crianças”.
“Em nenhum momento nós queremos tirar a relevância dos estetoscópios tradicionais ou eletrónicos, mas o ‘smartphone’ acaba por ser uma tecnologia familiar do dia a dia. É uma tecnologia que tem um potencial enorme (…). A lógica de que são os clínicos que têm que fazer tudo e tomar conta da nossa saúde faz parte do passado. Temos que ser agentes ativos e, neste caso, os pais e até os profissionais em escolas, creches, etc. podem ter um papel central na monitorização da saúde das crianças e até ajudar a evitar agudizações em períodos de crise. A lógica aqui é o doente como poder, com uma ferramenta para o ajudar”, referiu Cristina Jácome.
Segundo a FMUP, este é o primeiro estudo a aplicar um modelo de IA para detetar ruído respiratório agudo, semelhante a um assobio ou "chiado no peito", através de sons respiratórios gravados por ‘smartphone’.
Ao todo participaram 217 crianças e adolescentes com idades compreendidas entre os 0 e os 17 anos da consulta externa de pediatria da Unidade Local de Saúde de São João, no Porto.
Realçando a colaboração no estudo de investigadores de Coimbra que “têm muita experiência na análise de sons respiratórios” e ajudaram a equipa do RISE-Health/FMUP a criar um algoritmo de IA dedicado a este tema, e revelando que foi criada uma primeira base de dados internacional de sons adquiridos com ‘smartphones’, Cristina Jácome disse que o próximo passo pode estar em alargar o estudo a outras ULS, bem como testar a ideia em pessoas mais vulneráveis ou idosas.
“Pensando no ciclo de vida e em patologias como a demência, há todo um trajeto para fazer também noutras faixas etárias e noutras patologias. Os cuidadores informais também poderão ter interesse em perceber como isto funciona”, exemplificou.
Sobre os resultados atuais de um estudo que teve início em 2021, passou já por algumas dificuldades no que diz respeito a financiamento e foi publicado, em maio deste ano, na revista científica European Journal of Pediatrics, sabe-se que este integrou 2020 gravações de sons respiratórios através de ‘smartphones’ e que o modelo de IA desenvolvido registou uma precisão de 87% na deteção de ruídos respiratórios.
Em função disto, os investigadores concluíram que “a auscultação pulmonar através do ‘smartphone’ torna-se especialmente valiosa nos cuidados pediátricos, uma vez que contorna a barreira da necessidade de cooperação ativa da criança”, sendo esta uma “tecnologia que viabiliza e escala a monitorização à distância, funcionando como um pilar central para futuros Sistemas de Apoio à Decisão Clínica”.
Contando que foi já contactada por profissionais da Colômbia e de África, “países com serviços de saúde menos organizados, com menos cuidados de saúde primários do que Portugal”, descreveu a adesão dos pais com os quais conviveu e sublinhou “a potencial importância desta ideia para o Serviço Nacional de Saúde português no acompanhamento de várias patologias crónicas e agudas”.
“Em ambiente clínico, fizemos a auscultação com 45 pais e a adesão foi muito boa. Mais de 90% disseram que estariam disponíveis para utilizar esta aplicação em ambiente real, estariam disponíveis para permitir que os médicos que acompanham as crianças recebessem estes sons respiratórios também para melhorar as decisões clínicas”, revelou, destacando como outro objetivo o aumento da literacia em saúde da população.
Liderado por Cristina Jácome, o artigo científico “Wheeze detection in real-world pediatric care: AI applied to smartphone lung auscultation” (em português livre: “Deteção de sibilos em cuidados pediátricos no mundo real: IA aplicada à auscultação pulmonar por smartphone”) contou com a participação de Inês Pais-Cunha, Maria Catarina Silva, Henrique Ferreira-Cardoso, João Fonseca e Inês Azevedo, investigadores da FMUP e da unidade de investigação RISE-Health, a par de outros investigadores nacionais, nomeadamente da Universidade de Coimbra.