Manuel Caldas tem 100 anos e teima em cuidar diariamente de tudo o que é seu, enquanto Fátima Pinto renovou a carta de condução dias antes de fazer 90 anos e assegura que pensa como se tivesse 25 anos.
A Lusa foi à procura de idosos independentes e encontrou dois exemplos de autonomia, duas pessoas que não se confinam à própria casa, mas antes insistem em fazer vida todos os dias, ou quase, no exterior.
Manuel Caldas recebeu a reportagem da Lusa após ter medido a tensão arterial num anexo da sua casa em Matosinhos. “Faço isto de três em três dias”, disse enquanto segurava um caderno A4 com dezenas de nomes e contactos de familiares, a quem liga sempre, no dia de aniversário, do seu telemóvel.
Perguntado sobre como é o seu quotidiano, usou das palavras para responder com a mesma ligeireza com que caminha, sobe e desce escadas, explicando que é o gato, o Pantera, quem o acorda.
Depois disso, contou, não para, ocupando as horas seguintes entre fazer a barba, regar os jardins, tratar da horta, dar umas voltas, ir ao barbeiro, ir ao banco, classificando essa disponibilidade e mobilidade como sendo, para si, “a vida normal”, num rol de atividades diárias que inclui idas “aos correios e à farmácia”.
“Eu corro tudo”, revelou Manuel Caldas, assegurando não querer que “façam nada” por ele, nem mesmo a filha, que reside no andar de cima da antiga casa de férias da família de Montalegre.
“Nada, não quero que me façam nada”, enfatizou.
Questionado sobre sonhos ainda por cumprir, o centenário preferiu olhar para o passado: “Eu já corri o diabo, já fui para o Brasil, já fui para a Madeira, para a França”.
O dia da conversa coincidiu com a ida ao barbeiro, que dista cerca de 500 metros da sua casa, e que percorreu a pé, sempre em passo apressado, indiferente aos degraus e rampas.
Já sentado na cadeira do salão de barbearia repetiu a frase que faz parte da brincadeira com os profissionais: “em setembro vou fazer 101 anos e, se calhar, é o último”.
“Qual é o segredo para chegar aos 100 anos? Comer, beber e andar na rua. Não ter inimigos”, respondeu à pergunta antes de confessar que continua a gostar de “brincar e de dizer umas bacoradas”.
Fátima Pinto, de 90 anos, junta o conhecimento empírico à ação, iniciando a conversa com a Lusa a precisar que é “longeva, já não idosa” e que acorda diariamente às 07:30 para tratar das gatas e do canário.
“Ando sempre a subir escadas. São 16 degraus. É muito bom subir as escadas, para a articulação das pernas”, disse, antes de revelar que todas as manhãs “toma a poção mágica”, um batido que reúne diversas qualidades de fruta e de legumes.
Já quanto a medicamentos, sublinhou a residente no Porto, o “único que toma regularmente é para a tensão arterial”.
Para Fátima Pinto, nem as implicações da covid-19, que a obrigaram a interromper as aulas diárias que à segunda-feira eram de ginástica, à terça-feira de ‘tai chi’, à quarta-feira de ioga, à quinta-feira de zumba e à sexta-feira de dança latina, a demoveram, passando, por iniciativa própria, em casa a fazer “todos os dias um bocadinho de cada coisa”.
No final de 2025, pouco antes de fazer 90 anos, renovou a carta de condução: “Saí com 20 valores”, apressou-se a dizer, garantindo “guiar melhor do que a maior parte” dos jovens e que o faz duas vezes por semana, quando visita os filhos ou vai ao supermercado.
“Eu penso como se tivesse 25, 30 anos. Vivo como se tivesse 50 anos. Não me lembro se tenho 90 ou 80 anos, foi sempre assim. E depois tenho uma coisa: esqueço-me de morrer. E como me esqueço de morrer, ainda melhor”, sintetizou a sua mentalidade.
Médico na Unidade de Saúde Familiar Pirâmides, na Maia, e com pós-graduação em Geriatria, João Vieira explicou à Lusa que são questões genéticas, sociais e uma questão de atitude, de parte psicológica, que explicam os idosos ativos.
“O senhor teimoso, de 100 anos, que gosta de fazer as coisas, que é uma pessoa ativa, que tem a componente física bem desenvolvida, de se querer manter ativo e a senhora de 90 anos, que tem a parte cognitiva que lhe permite ter uma atitude empreendedora e de querer aprender coisas novas, misturado com a genética e com o ambiente social em que estão inseridos, faz com que exista uma longevidade e um envelhecimento ativo, um envelhecimento saudável”, relatou.
Admitindo tratar-se de “exceções à regra”, João Vieira salientou, todavia, ser “cada vez mais frequente existirem os grandes gerontes”, assinalando que, antigamente, “a maior parte das tabelas de risco avaliavam as pessoas até aos 65 anos e que hoje, esse risco, é avaliado até aos 90 anos”.
A forma de haver cada vez mais pessoas a atingir estas idade e manterem-se ativos começa na juventude, frisou o médico, reiterando que “crescer é envelhecer de forma saudável”.
Atitude positiva para com a saúde física, mental e social, convívio com outras pessoas, ser como o senhor ativo que vai à horta, que tem o seu canteiro, o seu espaço, a sua atividade, que contacta com pessoas, que tem que lidar com os assuntos, resolver problemas que lidam no dia-a-dia e como a senhora de 90 anos, mas que pensa como uma pessoa jovem, que quer aprender, constituem, para o clínico, a chave da longevidade.
Questionado se o facto de Manuel Caldas ter quase 20 anos no final da Segunda Guerra Mundial e se a cultura, a ciência e a sociedade da altura podem ter efeitos, 80 anos mais tarde, na sua saúde, João Vieira admitiu haver “coisas do antigamente que ainda se aplicam e que vão continuar a aplicar-se no futuro”.
“Aquilo que ele aprendeu, aquilo que ele tirou daquela altura, de certeza que lhe trouxe armas para poder ter esta longevidade. Ensinamentos da vida, formas de como gerir, sobreviver com pouco, aprender o que tem que fazer e responsabilizar-se pela saúde dele. A sociedade da altura e aquilo que ele aprendeu trouxeram-lhe coisas que lhe permitiram estar até agora”, concluiu.
Segundo o Instituto Nacional de Estatística, em 2024, a proporção de idosos (população com 65 ou mais anos) era de 24,3%, um número que quase triplicou o apurado em 1970, que era de 9,7%. O INE projeta ainda que em 2100 seja de 37,3%. No dia 16 de maio assinalou-se o Dia da Geriatria.