Uma sanita inteligente que permite fazer um eletrocardiograma ou um assistente de cozinha que liga e desliga equipamentos por comandos de voz são algumas das inovações de uma casa hoje inaugurada no hospital Rovisco Pais, na Tocha, Cantanhede.
Outras passam por um sistema tecnológico que permite realizar exercício físico de manutenção sem sair da habitação, efetuar análises à urina ou saber, em determinado momento, o que está na despensa ou no frigorífico, dentro do prazo de validade para preparar refeições.
Designada “Casa VIVA+ Engenheiro António Oliveira” a moradia de piso térreo, com dois quartos, duas casas de banho (WC) e uma ampla divisão composta por cozinha, sala de estar e de refeições, foi concebida como “um laboratório vivo de inovação em habitação e saúde”, referiram os promotores.
A casa alia a tecnologia à saúde para lidar com o envelhecimento da população, um projeto de 16 milhões de euros liderado pela empresa Oli, em parceria com a Universidade de Aveiro, a Unidade de Saúde Local (ULS) de Coimbra, o Centro de Medicina de Reabilitação da Região Centro Rovisco Pais, na Tocha, concelho de Cantanhede, distrito de Coimbra, e a Associação para o Desenvolvimento da Casa do Futuro (InovaDomus).
“O que se procurou fazer foi orientar as soluções na casa para a monitorização de indicadores ligados à saúde. E permitir que as pessoas, que noutras circunstâncias estariam internadas em hospitais, sejam acompanhadas em casa de uma forma mais confortável e independente, do que em instituições onde sobrecarregam um sistema já sobrecarregado sem as condições de conforto que teriam na própria casa”, disse aos jornalistas António Oliveira, presidente do conselho de administração da Oli.
Se o projeto nasceu dentro da InovaDomus – entidade que agrega empresas e entidades públicas e dinamiza projetos de inovação associados ao bem-estar dentro de casa -, um dos seus mentores foi, precisamente, o pai do atual presidente da Oli, também António Oliveira, recentemente falecido, cujo nome foi associado à designação da Casa Viva+.
“O meu pai foi doente durante mais de 20 anos, preocupava-se com a saúde das pessoas e com a forma como as pessoas viviam na doença. E nunca quis sair de casa, e nunca saiu, apesar da doença. Em certa medida, começou a procurar soluções, que a indústria pudesse desenvolver, ligadas à saúde e é daí que surge esta ideia do tampo de sanita, que faz a monitorização dos dados biométricos, faz ECG [eletrocardiograma] e monitorização cardiovascular e oxigenação”, explicou.
O responsável da OLI notou, por outro lado, que o WC “é um dos espaços mais utilizados no quotidiano e, simultaneamente, um dos mais críticos em termos de segurança, conforto e autonomia, sobretudo para uma população mais envelhecida”.
Perante os jornalistas, Nuno Almeida, investigador da Universidade de Aveiro (UA), demonstrou, entre outras inovações, a facilidade com que é possível fazer exercício físico de manutenção: um aparelho associado a uma câmara filma o utilizador, na sala de estar, e este interage com a tecnologia por comandos de voz, fazendo os exercícios que lhe são pedidos, ao mesmo tempo que a tecnologia assinala, no corpo do utilizador, posturas corretas ou incorretas.
Citado numa nota dos promotores do projeto, o reitor da UA, Paulo Jorge Ferreira, considerou o Casa Viva+ como a concretização de uma visão “verdadeiramente pioneira sobre o futuro da habitação e da saúde”.
“Inspirado pelo pensamento visionário do engenheiro António Oliveira, este projeto afirma-se como um legado vivo da sua capacidade de antecipar desafios e mobilizar soluções inovadoras ao serviço das pessoas”, frisou.
Já Jorge Lains, diretor do Departamento de Reabilitação da ULS Coimbra e hospital Rovisco Pais vincou que o edifício “deve deixar de ser uma estrutura passiva para se tornar um agente ativo na promoção do bem-estar e da saúde, e na prevenção da doença”.
“Para a ULS Coimbra, este protocolo é a oportunidade de transferir o conhecimento clínico para o ambiente doméstico. Ao colaborarmos neste laboratório vivo, estamos a ajudar a desenhar casas que não são apenas resilientes e adaptáveis, mas que funcionam como extensões do sistema de saúde”, enfatizou.