A segunda edição do Festival do Luto, no Porto, apresenta este ano uma programação maior, no sábado em vários espaços da cidade, para continuar a ouvir e dar voz às pessoas, face ao tabu em torno do tema.
Em entrevista à Lusa, a presidente da associação Compassio, Mariana Abranches Pinto, explica que o objetivo do festival passa por “dar voz ao luto” e contribuir para quebrar o silêncio e "os tabus associados" ao tema.
“Falar mais do tema. Cada vez falar mais do tema. E assim, desta forma descontraída. Sem estigmatizar. Sem serem locais escuros. Durante o dia todo, na rua, com batuques. Há uma performance artística com humor. Mais à noite, ao fim do dia, há um memorial, uma coisa já mais séria. Misturar tudo. Cada vez mais”, resume.
Ao longo do dia, o festival apoiado pela Câmara do Porto e pela maioria das juntas de freguesia, vai da Praça do Marquês aos auditórios da Fundação Marques da Silva e do Centro de Cultura do Politécnico do Porto, entre outros espaços, com conferências, oficinas, conversas abertas, apresentações artísticas e outras partilhas.
O objetivo é abranger o luto de forma mais acompanhada, seja pela morte de alguém, o fim de uma relação, o luto gestacional ou qualquer outra forma de o viver.
Em relação à primeira edição, este ano tem “um programa muito maior, uma grande aposta em atividades para famílias”, onde é “importante falar, porque isto é um tema tabu, e não separar as crianças dos adultos”.
Entre as novidades estão também os chamados “pontos de autocuidado”, espaços criados para acolher emocionalmente os participantes através de várias atividades, além do lançamento do projeto “Em luto contigo”, que pretende estimular mais compaixão na comunidade, através de testemunhos pessoais sobre o que gostam e o que não gostam de ouvir durante o processo de luto.
“Muitas vezes só a escuta é muito mais salvadora do que um conselho”, sublinha.
Porque “o luto não se cura, cuida-se”, a Compassio tem trabalhado para se aproximar de quem possa precisar de compreender melhor os processos por que passam, entre adaptação e “apostar na relação com os outros”, mesmo que inclua a pessoa que se perdeu e mesmo “que seja só com as memórias”.
O luto prolongado foi recentemente considerado patologia pela Organização Mundial de Saúde e Mariana Abranches Pinto lembra que “o luto não é uma coisa para se ultrapassar, isto fica para sempre”.
“A minha filha morreu. O luto fica para sempre. Agora, integro isso na minha vida e sigo em frente. (...) O luto não é nenhuma doença, mas pode tornar-se doença”, lembra.
A associação, a funcionar de um espaço cedido pela Escola Superior de Educação Paula Frassinetti, conta atualmente com duas pessoas a tempo inteiro e duas em regime parcial, apontando a necessidade de obter mais financiamento para aumentar os recursos e as respostas no terreno.
Além do festival, a Compassio organiza grupos de partilha, ou “grupos casa”, para pessoas em luto, em funcionamento há quatro anos, com sessões presenciais e ‘online’, acompanhado por dois facilitadores, desenvolvendo-se ao longo de sete sessões.
“Custa muito as pessoas inscreverem-se, mas quando fazem adoram”, conta, numa fase em que as inscrições estão abertas para o próximo grupo.