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Especialistas propõem Via Verde para cancro ginecológico e registo que identifique atrasos

Lusa
13-05-2026 00:05h

A criação de uma Via Verde para o cancro ginecológico e um registo capaz de identificar atrasos assistenciais são algumas das recomendações dos especialistas, que recordam que tratar a doença em estado avançado por custar até três vezes mais.

As recomendações dos especialistas do projeto OncoGyn Pt – Diagnóstico, Tratamento e Acesso no Cancro Ginecológico, da Nova Medical School, que serão apresentadas hoje, incluem a necessidade de centralizar o tratamento em centros de referência acreditados pela Sociedade Europeia de Oncologia Ginecológica (ESGO), para que a sobrevivência da mulher não dependa do local onde reside.

Segundo explicou à Lusa Mariana Zagalo, gestora de Projetos da Nova Medical School Scientific Services, esta Via Verde OncoGyn permitiria estratificar de forma precoce o risco, referenciação prioritária, acesso célere a exames e comunicação estruturada entre os médicos de família e os hospitais.

“Embora os médicos de Medicina Geral e Familiar já disponham atualmente de mecanismos de referenciação hospitalar, a ausência de um circuito estruturado, diferenciado e prioritário para oncologia ginecológica faz com que muitas mulheres entrem num percurso assistencial indiferenciado, sujeito a múltiplos tempos de espera administrativos e clínicos”, lembrou a responsável.

Com a Via Verde OncoGyn pretende-se ainda reduzir recusas administrativas, duplicação de processos e “reinício desnecessário de circuitos assistenciais”. Mais do que uma simples atribuição formal de prioridade, cria “um modelo integrado de referenciação rápida, alinhado com boas práticas internacionais”, acrescentou Mariana Zagalo.

A especialista considerou ser fundamental reforçar a interoperabilidade dos sistemas de informação, uniformizar circuitos diagnósticos entre regiões e expandir a capacidade instalada em áreas críticas como Anatomia Patológica, Radiologia e Ginecologia Oncológica.

“Neste contexto, a implementação de uma rede nacional de telediagnóstico em Anatomia Patológica poderá reduzir desigualdades regionais e acelerar a confirmação diagnóstica através da partilha digital de lâminas e da avaliação por subespecialistas”, explicou.

O Oncogyn PT sugere também a modernização do acesso à Genética Médica e à “testagem em cascata”, permitindo o seguimento estruturado de mulheres com risco hereditário e o acesso atempado a estratégias de prevenção primária e vigilância personalizada em todo o território nacional.

“A evidência internacional demonstra que os melhores resultados em oncologia ginecológica dependem do acesso atempado a equipas diferenciadas, cirurgia especializada e centros com elevado volume assistencial”, disse Mariana Zagalo.

A responsável recordou que, em Portugal, há “assimetrias regionais relevantes” no acesso a Ginecologia Oncológica, cirurgia minimamente invasiva e robótica, ensaios clínicos e capacidade cirúrgica diferenciada.

Tudo isto faz com que o código postal “continue a influenciar prognóstico, acesso à inovação e probabilidade de sobrevivência das doentes”, acrescentou, considerando fundamental “proteger a janela terapêutica” através do reforço da capacidade cirúrgica, redução dos estrangulamentos em bloco operatório, anestesia, imagiologia e anatomia patológica.

Mariana Zagalo recordou igualmente que “os sistemas atualmente existentes não foram concebidos para acompanhar de forma integrada a jornada assistencial completa da doente”, para destacar outra das recomendações: a criação de um Registo Oncológico Interoperável.

“Continua a existir uma limitação estrutural na capacidade de identificar com precisão onde ocorrem os principais atrasos ao longo do percurso assistencial”, disse, explicando que muitos dos indicadores disponíveis “avaliam apenas momentos isolados do processo assistencial”, frequentemente já em contexto hospitalar, não captando atrasos pré-diagnóstico, duplicação de procedimentos, tempos de espera intermédios ou desigualdades regionais no acesso aos cuidados.

Questionada pela Lusa, reconheceu que a escassez de recursos humanos especializados é um dos principais constrangimentos estruturais à concretização das recomendações propostas no OncoGyn PT, limitação que disse ser “particularmente crítica” em áreas como Medicina Geral e Familiar, Ginecologia Oncológica, Anatomia Patológica, Radiologia e Genética Médica.

Por fim, os especialistas sublinham a necessidade de reforçar a literacia em saúde, com campanhas diferenciadas para cancro do ovário e cancro do endométrio, assim como a integração da saúde feminina nos currículos escolares, incluindo conteúdos de autoconsciência corporal, saúde pélvica, ciclos menstruais e risco ginecológico.

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