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Moçambique regista 11 mortos em superstições de magia que atrofia órgãos genitais

Lusa
27-04-2026 14:22h

Pelo menos 11 pessoas morreram por agressões físicas em três províncias de Moçambique, na sequência de superstições de alegada magia que atrofia órgãos genitais a partir de um toque, anunciaram as autoridades.

Os óbitos ocorreram nas províncias de Nampula (02) e Cabo Delgado (05), no norte de Moçambique, e na província da Zambézia (04), no centro do país.

Em causa estão superstições que correm, desde 18 de abril, em Cabo Delgado, que se espalharam pelas restantes províncias e nas redes sociais, sobre alegado atrofiamento, encolhimento e até desaparecimento de órgãos genitais, principalmente masculinos, a partir de um toque.

Em Nampula, as superstições causaram dois óbitos e oito feridos por agressão física, em 16 casos de desinformação registados entre quarta-feira e domingo, em alegações de magia negra nos distritos de Eráti e Monapo.

“Infelizmente [as vítimas] eram acusadas de prática de magia negra. Estes sofreram vários golpes e depois dos golpes os indiciados teriam ateado fogo e infelizmente [as vítimas] acabaram perdendo a vida”, disse hoje Dércio Samuel, porta-voz da Polícia da República de Moçambique (PRM), em Nampula, durante uma conferência de imprensa.

Segundo Dércio Samuel, a polícia deteve 24 pessoas por desinformação e incitamento à desobediência coletiva, alertando para o envolvimento de crianças supostamente “aliciadas para criar pânico”.

Em Cabo Delgado, as superstições causaram a morte de cinco pessoas nos distritos de Mocímboa da Praia (01), Ancuabe (02), Montepuez (01) e Metuge (01), além do ferimento de outras 20, todas vítimas de agressão física.

“Chamamos toda a sociedade a denunciar e confiar na Polícia da República de Moçambique. Como já nos referenciamos aqui, estamos em prontidão sobre este fenómeno. Não podemos ficar distraídos, a nossa província está a viver um momento de terror”, disse o comandante provincial da PRM em Cabo Delgado, Assane Fikir, citado hoje pela comunicação social local, referindo que foram detidas 25 pessoas e lavrados nove autos.

Já na Zambézia, a Lusa noticiou, no domingo, que pelo menos quatro pessoas morreram após a propagação das superstições, segundo Miguel Félix, chefe do posto administrativo de Macuse, onde ocorreram os incidentes.

As vítimas foram linchadas e carbonizadas, num ambiente de pânico instalado após a difusão de boatos de que um aperto de mão poderia provocar o encolhimento dos órgãos genitais, situação que obrigou à intervenção da polícia.

Em declarações aos jornalistas, as autoridades de Saúde de Cabo Delgado e Nampula esclareceram que não há encolhimento de órgãos genitais, referindo tratar-se de pânico social coletivo, tendo sido, por isso, criado um grupo técnico multissetorial composto por médicos de clínica geral, médicos legistas, psiquiatras e psicólogos para analisar a ocorrência e avaliar os pacientes que chegam às unidades hospitalares queixando-se de atrofiamento dos órgãos.

“Tendo os casos sido avaliados pelos médicos (…) não houve evidência de nenhuma alteração da anatomia dos órgãos genitais”, afirmou o diretor do Serviço Provincial da Saúde em Cabo Delgado, Edson Fernando.

“Após avaliação médica constatou-se que não havia nenhuma alteração a nível da região genital. Submetidos a avaliação psicológica [os pacientes] apresentaram alteração de comportamento, mas após apoio psicológico eles voltaram a ter a sua vida de forma normal”, disse o psicólogo clínico do Hospital Central de Nampula, Ibrahimo Manuel.

A Polícia da República de Moçambique pede que a população denuncie os “agitadores” sob o risco de o fenómeno causar a paralisação de serviços, referindo que há forças operativas no terreno em prontidão, principalmente em locais de maior aglomerado.

“A polícia será dura e implacável a todos aqueles que forem a se envolver nessa questão de desinformação. São pessoas inocentes que estão a perder a vida”, declarou o porta-voz da polícia em Nampula.

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