A Sociedade de Médicos Cabo-verdianos nos Estados Unidos inicia hoje a primeira missão clínica em Cabo Verde, mobilizando mais de 70 profissionais de saúde para intervenções cirúrgicas em áreas como oncologia, rastreio de doenças reumáticas cardíacas e reconstrução plástica.
"A oncologia cirúrgica tem um programa bastante ambicioso, porque vamos fazer muitos casos complexos que estão à espera de evacuação [transferência], como tumores do fígado, do ovário e outros tipos de doença que, em Cabo Verde, muitas vezes não têm solução e que vamos tentar resolver", afirmou o presidente da associação, Júlio Teixeira, citado pela Rádio de Cabo Verde (RCV).
A missão contará também com equipas de reconstrução plástica e prevê a realização da primeira mastectomia com reconstrução imediata no país, permitindo evitar o impacto físico associado à perda da mama.
"Será um caso inédito em Cabo Verde, além de outras áreas bastante diferenciadas de cirurgia, como a do fígado e dos sarcomas", referiu.
O responsável garantiu ainda disponibilidade para apoiar o desenvolvimento de programas mais avançados, como o de transplantes.
"Temos toda a capacidade. Trabalhei na área de transplantes durante mais de 25 anos e não seria difícil apoiar esse programa, desde que haja interesse. Estamos disponíveis para colaborar de forma regular e realizar estes casos", disse.
Na área da oftalmologia, o programa inclui cirurgias de catarata em larga escala, com o objetivo de reduzir os casos de cegueira evitável no país.
A missão pretende também identificar precocemente doenças em jovens, contribuindo para reduzir complicações cardiovasculares a longo prazo.
No plano operacional, a meta é realizar até 150 ecocardiogramas por dia em cada ilha, totalizando mais de mil exames durante a missão.
Está ainda prevista a implementação de uma resposta especializada na gestão de arritmias cardíacas.
A missão, que decorre até ao dia 24, envolve médicos, cirurgiões, enfermeiros, psicólogos e outros técnicos.
As intervenções decorrem em simultâneo nas ilhas de Santiago, Sal, Fogo, São Vicente, Brava, Santo Antão e São Nicolau.
Em julho do ano passado, o ministro da Saúde anunciou que Cabo Verde triplicou o número de transferências médicas para Portugal entre 2023 e o primeiro trimestre de 2025, devido à falta de resposta interna em especialidades como cardiologia, oncologia e oftalmologia.
"Temos constatado um crescimento acentuado e contínuo das transferências para o exterior, nomeadamente para Portugal. O número previsto no acordo é de 300 por ano, mas tem sido ultrapassado", afirmou o ministro Jorge Figueiredo, indicando que atualmente são transferidos cerca de 900 pacientes por ano.
O governante anunciou ainda que o país pretende formar médicos em seis especialidades a partir deste ano, para reduzir a dependência de profissionais estrangeiros e de missões internacionais.
Entretanto, o Governo prevê avançar este ano com a construção do Hospital Nacional de Cabo Verde (HNCV), um investimento de cerca de 210 milhões de euros.
A nova infraestrutura deverá dispor de tecnologia avançada e serviços especializados ainda inexistentes ou insuficientes no país, com o objetivo de melhorar a qualidade dos cuidados de saúde, aumentar a capacidade de resposta e reduzir o número de transferências médicas para o exterior.
Cabo Verde realizou em 24 de março o primeiro transplante renal, em parceria com Portugal.