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Mais de 17 mil pessoas sem diagnóstico da tuberculose por ano em Moçambique - ONG

Lusa
24-03-2026 11:15h

A Associação de Ajuda de Desenvolvimento de Povo para Povo (ADPP) estima que cerca de 17.400 pessoas ficam sem diagnóstico da tuberculose anualmente em Moçambique, evidenciando as persistentes barreiras no acesso aos cuidados de saúde no país.

"Moçambique está entre os 30 países com maior incidência de tuberculose no mundo, com mais de 17.000 pessoas sem diagnóstico a cada ano", lê-se numa nota da Organização Não-Governamental (ONG) internacional, enviada hoje à Lusa, assinalando o Dia Mundial da Tuberculose.

Segundo a ADPP, a tuberculose continua a ser uma das principais causas de morte em Moçambique, particularmente entre as pessoas que vivem com Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH), e, só em 2023, estima-se que 112.000 pessoas tenham desenvolvido TB [tuberculose], mas aproximadamente 17.400 casos permanecem sem diagnóstico a cada ano, "o que evidencia as persistentes barreiras ao acesso aos cuidados de saúde".

A ONG alerta que o estigma, a discriminação e os mecanismos limitados de resposta dentro dos sistemas de saúde continuam a impedir que muitos doentes tenham acesso a um diagnóstico e tratamento atempados.

Além disso, a associação alerta que as inundações, as secas e as deslocações, cada vez mais frequentes na África Subsariana e noutras regiões devido às alterações climáticas, podem perturbar a continuidade do tratamento da tuberculose, destruir as infraestruturas de saúde e provocar a sobrelotação em ambientes com poucos recursos.

"Estas condições aceleram comprovadamente a tuberculose. Para os países que já apresentam uma elevada carga de tuberculose, os desastres climáticos não são um risco futuro, mas sim uma emergência presente", explica-se na nota.

De acordo com a ADPP, o uso de plataformas digitais, como a `OneImpact´, uma aplicação de monitorização liderada pela comunidade desenvolvida pela Stop TB Partnership e agora ativa em mais de 23 países, permite, entre outros, entender a dinâmica social das pessoas infetadas pela doença, facilitando também a disseminação de informações e apoio.

"Em Moçambique, [a OneImpact] permitiu que os doentes com tuberculose relatassem estigma e discriminação, acedessem aos seus direitos e permanecessem ligados aos cuidados. A sua primeira avaliação formal, num contexto africano, constatou uma elevada aceitação por parte dos utentes, com melhorias mensuráveis na comunicação com os profissionais de saúde, na adesão ao tratamento e na sensibilização para os direitos", conclui-se.

Em 14 de novembro, a Lusa noticiou que Moçambique alcançou níveis de diagnóstico da tuberculose acima de 80% em 2024, verificando-se confirmação bacteriológica da doença em metade das notificações, mas registou falhas na cobertura da tuberculose multirresistente, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

De acordo com "Relatório Global de Tuberculose 2025", Moçambique está entre os três países com elevada carga de tuberculose multirresistente aos antibióticos que não atingiram 50% na cobertura de diagnóstico da doença em 2024, com um nível de abrangência de 31%, lista que partilha com a República Democrática do Congo, com 35%.

Moçambique registou 48.000 casos de tuberculose no primeiro semestre de 2025, com as autoridades de saúde a apontarem a falta de financiamento como uma das causas do aumento dos casos da doença no país.

"Moçambique continua a enfrentar uma elevada carga desta doença, muitas vezes associada ao VIH, afetando gravemente, principalmente, as populações mais vulneráveis", disse a 23 de julho o secretário permanente do Ministério da Saúde, Ivan Manhiça.

A tuberculose, causada pelo bacilo 'mycobacterium tuberculosis', continua a ser um grande problema de saúde pública global e o progresso na sua redução está muito aquém das metas de 2030.

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