Pelo menos três portugueses viajaram para Cuba na semana passada pela iniciativa “Nuestra América”, que levou dezenas de toneladas de ajuda humanitária, incluindo medicamentos e material médico, para a ilha sob embargo energético dos Estados Unidos.
Anabela Vogado, Jorge Patrício e Raquel Ribeiro partiram de Milão para Cuba, onde chegaram terça-feira, após terem respondido ao apelo lançado pela associação que organizou o "Comboio Nuestra América", a Internacional Progressista, para reunir doações e voluntários para partir até Havana.
À Lusa, Jorge Patrício, que tal como Anabela Vogado representam a Associação cultural Rotas Vermelhas, disse ter testemunhado algumas das principais dificuldades vividas pelos cubanos, nomeadamente na saúde, desde que o Presidente norte-americano, Donald Trump, suspendeu a comercialização de petróleo venezuelano à ilha.
“Visitámos o hospital Hermanos Ameijeiras onde nos foi explicado o impacto da atual situação, como o aumento das listas de espera, a necessidade de priorizar doentes oncológicos e grávidas, as dificuldades muito grandes na deslocação dos doentes ao hospital e a falta de material médico e auxiliar”, disse o voluntário.
Raquel Ribeiro, que pertence à Associação da Amizade Portugal-Cuba e que viaja regularmente para Havana onde também já trabalhou vários anos, explicou que só em doações de medicamentos e material médico foram levadas perto de cinco toneladas em ajuda a partir do voo proveniente de Milão.
“Os medicamentos que trouxemos, junto com a comitiva europeia, foram recebidos pelas autoridades à chegada a Cuba e algumas caixas foram distribuídas em hospitais da Havana e outras seguirão para outras partes do país e nós pudemos, nós mesmos, entregar diretamente algumas destas caixas nas visitas que fizemos”, adiantou a voluntária.
Durante as visitas, estiveram também “em contacto com pacientes, com o pessoal médico e com diretores de centros hospitalares”, nomeadamente “no Hospital Central, no pediátrico, no oncológico e num centro materno-infantil” em Havana, segundo Raquel Ribeiro.
“O diretor do hospital materno-infantil dizia-nos esta semana que o apagão que aconteceu de segunda para terça-feira fez cair o sistema energético em todo o país e obrigou o hospital a funcionar a geradores durante 15 horas e explicou que gasta cerca de 120 litros de combustível por hora”, afirmou.
“Há pisos do hospital onde a água já não consegue subir e quando há um apagão as luzes de emergência ligam-se com o gerador, mas às vezes também demoram e se estão no meio de uma intervenção cirúrgica, por exemplo, têm de ligar lanternas de telemóveis”, continuou a voluntária.
"Cuba é sim um país com projetos constantemente adiados por infortúnios exteriores, mas que não se resigna e segue de facto em frente, e é impressionante constatar isso", afirmou Jorge Patrício.
A situação em Cuba tem-se agravado devido à escassez de combustível, afetando todos os serviços, incluindo hospitais, gerando também apagões generalizados em todo o território.
A falta de eletricidade impediu a realização de cerca de 50.000 cirurgias só no mês de fevereiro, alertaram as autoridades cubanas.
Segundo o Gabinete de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU, a escassez de combustível está também a atrasar a entrega de ajuda humanitária e a dificultar o acesso aos cuidados de saúde.
Várias centenas de ativistas do "Comboio Nuestra América" levaram para Cuba medicamentos, alimentos e painéis solares recolhidos por uma rede de organizações sociais da Europa, dos Estados Unidos e do México, no meio das atuais tensões entre Washington e Havana.