O presidente da Câmara de Gaia considerou hoje “muito preocupante e grave” a intenção de se criar um centro de cirurgia cardíaca no Hospital Santo António, no Porto, “esvaziando” aquele serviço do Hospital de Gaia com “propostas mais atrativas”.
“É uma situação muito preocupante e grave porque significará uma machadada naquele serviço”, disse Luís Filipe Menezes aos jornalistas na sequência de uma notícia do Diário de Notícias (DN) que hoje refere que quatro hospitais do Norte com serviços de cardiologia – Santo António, Vila Real, Matosinhos e Penafiel - subscreveram uma carta sobre o panorama na cirurgia cardíaca na região.
Segundo o DN, na missiva, que será dirigida à ministra da Saúde, os hospitais alertam para a lista de espera de doentes com problemas cardíacos a necessitar de cirurgia ou de implantação da válvula da aórtica.
Atualmente, doentes com estas características são referenciados para os dois centros de referência desta área: Unidade Local de Saúde (ULS) São João, no Porto, e ULS de Vila Nova de Gaia/Espinho.
Hoje, em declarações à Lusa, o diretor do serviço de cirurgia cardiotorácica da ULS Gaia/Espinho alertou que a abertura de um novo centro de cirurgia cardíaca na região Norte, nomeadamente na ULS Santo António, no Porto, “amputaria capacidade aos centros existentes”.
“O objetivo do Santo António é fazer uma abertura de um centro de cirurgia cardíaca com profissionais da nossa instituição. Isso coloca-nos aqui um grave problema porque, naturalmente, temos o serviço dimensionado de uma forma e corremos sérios riscos de deixar de ter capacidade para produzir como produzimos e cumprir os requisitos técnicos que um serviço tem que ter, nomeadamente, dar resposta 24 horas por dia, sete dias por semana”, referiu Paulo Neves.
A título de exemplo, o autarca social-democrata referiu que não pode haver 10 centros numa região, mas sim dois como acontece atualmente e como é prática na Europa.
“Quando se quer levar à pressa dois ou três médicos muito qualificados da cirurgia cardíaca de Vila Nova de Gaia para o Santo António é uma machadada que pode levar a que acaba a cirurgia cardíaca em Vila Nova de Gaia”, entendeu.
O autarca salientou que, a concretizar-se a criação de um centro de referência no Santo António, a cirurgia cardíaca de Gaia ficaria “muito comprometida” e seria uma “enorme injustiça” porque, ao longo dos anos, aquele hospital foi construindo um serviço “de elite e de referência europeia e mundial”.
“Por isso é uma injustiça estar-se a acenar com vencimentos muito mais altos, pagos de outra forma e com benefícios fiscais acrescidos, levando a que seja exaurido o quadro de profissionais do Hospital de Gaia”, frisou.
Na opinião de Menezes, o correto para o Serviço Nacional de Saúde (SNS) é ter dois grandes centros de cirurgia cardíaca na região, um em Gaia e outro no São João, tal como já existe.
Perante esta intenção, o presidente da câmara defendeu que todos os médicos que trabalham no hospital, todos os antigos diretores e todos os autarcas de todos os partidos se devem mobilizar para protestar contra esta intenção.
“Eu acho que, nesta altura, a união de toda a gente na defesa do hospital é muito importante. Até porque o hospital não tem capacidade competitiva para, neste momento, combater com aquilo que está a ser esgrimido para profissionais de Gaia irem para o Porto”, insistiu.
O social-democrata assinalou que Portugal deve seguir os exemplos europeus onde as grandes cidades têm um ou dois centros de referência e na periferia porque a emergência médica não se compadece com grandes dificuldades de mobilidade e de filas difíceis para circular.
“Nessas cidades por esse mundo fora, o que aconteceu é que esses hospitais localizados nos centros da cidade foram adaptados a hospitais de ambulatório e de consulta programada”, vincou.