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Mudança de comportamentos na saúde na Guiné-Bissau exige intervenção gradual - Professora

Lusa
13-02-2026 15:41h

A professora universitária Manuela Frederico Ferreira, em missão na Guiné-Bissau, declarou à Lusa que a mudança de comportamentos na área da saúde guineense exige uma intervenção gradual, centrada nas pessoas, e não pode ser imposta.

"Não podemos querer mudar as culturas de um momento para o outro, não é por decreto que se retiram hábitos de vida, hábitos de saúde, ainda que sejam mitos, ainda que sejam nefastos, mas é irmos por cada pessoa e envolver pessoas influentes da comunidade", afirmou à Lusa, por telefone, a docente da Escola Superior de Enfermagem da Universidade de Coimbra (ESEUC), que integrou uma missão de 15 dias no país africano a convite da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Para a professora, a intervenção em saúde em países como a Guiné-Bissau, onde a medicina tradicional tem um grande peso cultural, deve assentar numa abordagem centrada na pessoa.

"Para nós prestarmos cuidados centrados na pessoa temos que ter o conhecimento científico, mas temos que o prestar de forma humanizada", afirmou.

Manuela Frederico Ferreira e a sua colega, a docente Ana-Bela Caetano, na missão financiada pela OMS, formaram 33 profissionais de saúde do Hospital Nacional Simão Mendes, entre médicos, enfermeiros e parteiras, e sete docentes da Escola Nacional de Saúde da Guiné-Bissau, com foco na saúde materna, sexual e reprodutiva.

A Guiné-Bissau é "um país muito vulnerável, com uma população relativamente jovem, com mais de 60% que tem idade até aos 24 anos, com cerca de 51% do sexo feminino, e com uma taxa de mortalidade materna das mais elevadas do mundo, associada a hemorragias pós-parto, eclâmpsia, pré-eclâmpsia, sépsis e uma taxa de aborto bastante elevada", contextualizou a professora universitária.

A população enfrenta ainda outros constrangimentos relativamente ao setor da saúde, como os "pagamentos diretos que os utentes têm de fazer", nomeadamente em situações de cesarianas, em que pagam o material necessário, referiu.

Outra questão é a distância face aos serviços de saúde e as dificuldades de acessibilidade, acrescentou.

Sobre a formação em si, a investigadora explicou que, durante a primeira semana, a missão dedicou-se à formação dos docentes da Escola Nacional de Saúde e à análise das recomendações da avaliação realizada pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) ao currículo da licenciatura em Enfermagem, formalmente aprovado no final de 2023.

"Foi no sentido dessas recomendações que nós tivemos (…) a fazer a formação aos sete professores", explicou, sublinhando que o trabalho incidiu na harmonização curricular, na definição de objetivos de aprendizagem, metodologias e instrumentos de avaliação, bem como na requalificação da biblioteca.

"Quando estive cá anteriormente, já qualificámos a biblioteca, mas na altura tratou-se unicamente da biblioteca física, e agora já se pensa também na biblioteca 'online'", disse, alertando que "não chega ter os computadores para ter uma biblioteca 'online'".

A segunda semana, que termina hoje, foi dedicada à formação em enfermagem obstétrica e saúde sexual e reprodutiva, com conteúdos como "atualização em cuidados pré-natais e rastreios, questões contracetivos e planeamento familiar, gravidez precoce, casamento infantil, violência, questões de género, parto e pós-parto, humanização, ética, comunicação", concluiu.

Em 2017, a ESEUC assinou um protocolo com a Escola Nacional de Saúde da Guiné-Bissau para dar apoio à formação de profissionais de saúde guineenses - particularmente enfermeiros -, à conceção e implementação de planos de estudos de cursos de complemento de formação, licenciatura, formação de especialistas e pós-graduação, segundo o 'site' da escola.

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