Face aos crescentes casos de perturbação de stress pós-traumático na Ucrânia, os Médicos Sem Fronteiras (MSF) têm reforçado o apoio de saúde mental a soldados e civis, incluindo crianças, afirmou hoje uma médica da organização não-governamental (ONG).
Desde o centro de saúde mental de Vinnitsia, a 250 quilómetros de Kiev, os membros desta ONG prestam apoio a pessoas de todo o país que sofrem de perturbação stress pós-traumático (PTSD), depressão, ansiedade e ataques de pânico.
Em declarações à Lusa, a coordenadora de atividades de saúde mental da MSF na Ucrânia, Annie Slanina, descreveu que as principais dificuldades neste momento passam por tratar pessoas com perturbação de stress pós-traumático (PTSD) enquanto a guerra ainda continua.
“Estamos a falar de perturbação de stress pós-traumático, mas penso que é muito importante referir que a guerra continua. Portanto, não estamos numa fase ‘pós’ nada, continuamos, neste momento, a lidar com o trauma”, explicou a médica norte-americana.
Por isso, Slanina adiantou que mesmo que as pessoas consigam recuperar e aprendam a lidar com os seus sintomas, continuam a estar muito vulneráveis ao eventual retorno dos sintomas devido à escalada dos ataques russos.
“A dificuldade reside, em primeiro lugar, na dimensão do impacto da guerra, que se estende por todo o país. E à medida que a guerra continua mais infraestruturas civis são alvo de ataques e mais civis são afetados”, disse a médica norte-americana.
São os militares que “se encontram na linha da frente há tanto tempo” que apresentam “perturbações mais graves”, segundo Slanina.
“As pessoas podem apresentar uma combinação de lesão cerebral traumática e sintomas graves de PTSD. E essa é uma situação muito complexa e muito difícil de tratar de forma eficaz”, descreveu.
A MSF também apoia muitas crianças no centro de Vinnitsia, um grupo etário que é bastante vulnerável a desenvolver sintomas de trauma.
“Muitas vezes, têm familiares que prestam serviço nas Forças Armadas ou estão separadas de membros da família por diversas razões”, afirmou Slanina.
O apoio prestado a crianças difere do dos adultos, explicou a médica, que descreveu que as abordagens têm em conta a fase de desenvolvimento da criança.
“Recorremos bastante à terapia lúdica. Por exemplo, desenhar ou utilizar figuras ou brinquedos para ajudar as crianças a expressarem as suas emoções. Não conversamos com as crianças tanto quanto fazemos com os adultos”, descreveu.
Outro elemento importante do tratamento das crianças é informar os pais.
A médica explicou que as crianças que sofrem de trauma muitas vezes expressam-se com “comportamentos inadequados”, mas essa forma de agir é, na verdade, a forma que encontram para “expressar o seu sofrimento”, uma vez que “não têm palavras para se expressar da melhor forma”.
Slanina explicou que os médicos incluem os pais dos menores nos seus serviços sempre que possível.
“Isso significa realizar sessões 'online' com pais que estão a servir nas Forças Armadas ou encaminhar para terapia familiar, para que todos, toda a família, possam ser tratados de forma holística, em vez de se tratar apenas uma pessoa”, adiantou.
Entre os muitos sintomas associados ao PTSD, a médica destacou que alguns dos mais frequentes, além do isolamento, são os pesadelos, ‘flashbacks’ – “que são memórias muito intensas que fazem com que o corpo sinta que está a reviver o trauma” – e até “dificuldade em confiar nos outros”.
“Pode traduzir-se em evitar pessoas, locais, qualquer coisa que possa fazer-lhes lembrar um acontecimento passado”, continuou, acrescentando que algumas pessoas podem “ter algumas reações físicas e fisiológicas, tais como, por exemplo, hipervigilância, ou ficar facilmente assustadas”.
Até atividades comuns do quotidiano, como andar de transporte público, podem transformar-se em momentos difíceis.
Outro episódio comum que desperta sintomas de PTSD são os alertas de ataque aéreo, segundo a médica.
“Toda a gente tem uma aplicação de alertas aéreos no telemóvel” e sempre que surge um alerta as pessoas ficam “nervosas e perturbadas”, acrescentou.
Segundo dados da MSF, só em 2025 a ONG prestou mais de quatro mil consultas no centro de Vinnitsia.
Cerca de 80% dos pacientes apresentaram sintomas de stress pós-traumático e muitos sofriam, além disso, depressão, ansiedade, ataques de pânico ou problemas de sono, de acordo com a ONG.