A organização não governamental (ONG) timorense La’o Hamutuk defendeu hoje que a soberania alimentar deve ser uma prioridade nacional e pediu mais investimento agrícola para acabar com a fome e má nutrição em Timor-Leste.
Em causa está o relatório sobre o Índice Global da Fome de 2026 que atribuiu a Timor-Leste uma pontuação de 32,5, classificando o país na categoria “grave”.
“Este resultado constitui um alerta sério relativamente à segurança alimentar e à nutrição em Timor-Leste”, salienta o investigador da La’o Hamutuk Celestino Gusmão, em comunicado à imprensa.
“A fome e a má nutrição não decorrem apenas da falta de alimentos, estando também diretamente associadas à pobreza, ao acesso limitado a uma alimentação nutritiva, à insuficiência da produção agrícola, à dependência das importações e a políticas públicas que ainda não garantem resiliência para todas as famílias”, salienta Celestino Gusmão.
Dados do Governo timorense indicam que 47% das crianças com menos de cinco anos sofre de má nutrição crónica, 8,6% de desnutrição aguda, 32% tem peso abaixo do previsto e deficiência de vitamina A, ferro e iodo.
A resposta à fome, segundo a La’o Hamutuk, deve ser “acompanhada de mudanças estruturais na economia, na agricultura, na nutrição e na proteção social”.
“As medidas de emergência são importantes, mas não podem substituir investimentos destinados a prevenir crises e a reforçar a capacidade das famílias para assegurarem os seus meios de subsistência”, afirma Celestino Gusmão.
Segundo o Programa Alimentar Mundial, Timor-Leste importa mais de 60% do seu abastecimento alimentar.
“Esta dependência das importações torna as famílias mais vulneráveis às oscilações dos preços nos mercados internacionais e a interrupções no abastecimento”, adverte a La’o Hamutuk.
A ONG defende um modelo de desenvolvimento sustentável que coloque em “primeiro lugar as necessidades da população, a justiça social e a sustentabilidade económica”.
“O investimento na agricultura familiar, na irrigação, no armazenamento de água e alimentos, na assistência técnica aos agricultores, em sementes adaptadas às condições locais e no acesso aos mercados pode reforçar a produção, criar oportunidades de emprego e reduzir a vulnerabilidade às oscilações dos preços internacionais”, afirma, no comunicado, a La’o Hamutuk.
No comunicado, a ONG defende também que os programas de alimentação escolar devem contribuir para juntar os objetivos da nutrição infantil com a produção nacional.
“Para a La'o Hamutuk, a soberania alimentar não deve limitar-se ao discurso político. Deve ser apoiada por financiamento adequado, políticas públicas consistentes e mecanismos concretos de implementação, cujos resultados possam ser avaliados e monitorizados pela população”, acrescenta.