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Guiné-Bissau aprova estudo sobre hepatite B financiado pelos EUA e considerado "antiético" pela OMS

Lusa
11-10-2026 15:38h

As autoridades da Guiné-Bissau aprovaram um estudo científico que pretende comprovar os efeitos da não administração da vacina contra a hepatite B a um conjunto de recém-nascidos, noticia a revista norte-americana Rolling Stone.

De acordo com esta revista, o centro de pesquisa dinamarquês Projeto Bandim recebeu luz verde da Guiné-Bissau para avançar com o estudo, que é financiado com 1,6 milhões de dólares pelo Centro norte-americano de Controlo e Prevenção de Doenças, dependente do equivalente ao Ministério da Saúde nos governos europeus.

Esta departamento do governo norte-americano é liderado por Robert F. Keneddy Jr, conhecido pelas suas posições céticas sobre os efeitos das vacinas, mesmo naquelas que têm extensa documentação científica a comprovar as suas vantagens.

"Ele quer avançar com o estudo para não usarmos a dose que damos aos recém-nascido aqui neste país, esse é o objetivo", disse um médico de doenças infecciosas no hospital pediátrico de Filadélfia, Paul Offit, ao jornal britânico Guardian.

A notícia da aprovação por parte das autoridades guineenses é o último desenvolvimento de um debate que tem ocorrido na comunidade científica internacional sobre este estudo, que a Organização Mundial de Saúde já considerou ser "antiético" e que motivou a demissão de vários cientistas do comité de ética dinamarquês que aprovou a realização do teste na Guiné-Bissau.

Este país lusófono africano é um dos mais afetados pela hepatite B, tendo um rácio de quase uma cada cinco pessoas infetadas com a doença que mata 15 a 25% das pessoas com infeções crónicas, ao causar cancro ou insuficiência renal, escreve a revista Rolling Stone.

Esta doença é transmitida através da transmissão do vírus que pode sobreviver em superfícies durante sete dias e pode ser contraído através da partilha de toalhas de rosto, escovas de dentes e cortadores de unhas, explicou ainda o pediatra norte-americano ao jornal Guardian.

Em fevereiro, a Organização Mundial de Saúde (OMS) considerou "antiético" o estudo que implica excluir parte dos recém-nascidos da administração da vacina contra a hepatite B à nascença.

O arranque do ensaio clínico estava previsto para o início deste ano, mas as autoridades guineenses anunciaram, em janeiro, que tinha sido suspenso, depois da polémica que se gerou com a contestação de vários especialistas.

Para a OMS, este plano experimental, que teria como propósito estudar a reação à doença em recém-nascidos vacinados e outros que não recebiam a vacina, “é contrário à ética”, por implicar deixar crianças sem as doses da vacina à nascença.

"Isso poderia expo-las a uma alta probabilidade de infeção, o que implica um número significativo de mortes", alertou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, numa conferência de imprensa, a 11 de fevereiro.

O Departamento de Saúde dos EUA financia com 1,6 milhões de dólares (1,35 milhões de euros) o ensaio clínico previsto para o Projeto de Saúde de Bandim, em Bissau, que implicava também o início da administração da vacina contra a hepatite B ao nascer.

O Governo guineense anunciou, em janeiro, que tinha cancelado o ensaio clínico e adiado a introdução da vacina até 2028, mantendo o atual plano nacional contra a doença, com a vacinação às seis, dez e 14 semanas.

O ensaio clínico que estudaria os diferentes efeitos da vacinação contra hepatite B à nascença abrangia 14.000 recém-nascidos na Guiné-Bissau, sendo que metade seria imunizada ao nascer e a outra metade mantinha o atual plano com a primeira vacina às seis semanas de vida.

“Negar a metade das crianças do mundo o acesso a uma vacina que está disponível, é segura e eficaz há mais de 14 anos, é antiético”, afirmou o diretor-geral da OMS, organização que tem como meta até 2028 garantir a vacinação nas primeiras 24 de horas de vida contra a doença em países com prevalência alta da hepatite B, como é o caso da Guiné-Bissau.

Numa das várias declarações de resposta aos protestos, os responsáveis do Projeto Bandim argumentam que não é retirada qualquer dose aos bebés, uma vez que o plano de vacinação guineense não prevê a administração aos recém-nascidos.

Reconhecendo que "o efeito protetor da vacina contra a infecção pela hepatite B está bem estabelecido e não é questionado", apontam ainda que o estudo versa uma questão diferente: "Quais são os efeitos gerais na saúde – positivos, neutros ou negativos – da introdução da dose ao nascimento juntamente com a BCG e a vacina oral contra a poliomielite neste contexto específico?".

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