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Ébola: Decisões globais condicionam resposta nos países frágeis - médica portuguesa

Lusa
11-10-2026 08:20h

A médica portuguesa Rita Magano alerta que decisões tomadas à escala global condicionam a resposta a epidemias em sistemas de saúde frágeis e, no limite, podem vir a contribuir para que “uma parte da população desapareça”.

Em entrevista à Lusa, a médica, que se encontra na República Democrática do Congo (RDCongo) a trabalhar com os Médicos Sem Fronteiras (MSF) na resposta ao surto de Ébola, sublinha que a epidemia está a atingir “uma população muito fragilizada, com um sistema de saúde ainda muito precário”.

Para Rita Magano, a capacidade de resposta a uma emergência sanitária não depende apenas dos recursos mobilizados quando surge um surto, mas também das condições existentes nos sistemas de saúde e das decisões tomadas anteriormente a nível internacional.

“Vivemos num mundo que é de todos”, afirma, defendendo que aquilo que acontece numa parte do mundo “tem que nos afetar” e que as decisões tomadas à escala global têm consequências concretas para as populações mais vulneráveis.

A médica infecciologista chama particularmente a atenção para a redução de fundos destinados a apoiar estes países em outras doenças e cuidados de saúde, alertando que esses cortes têm impacto “na disponibilidade de medicamentos e na vigilância epidemiológica e na capacidade de resposta quando há uma epidemia”.

“Os fundos que foram cortados de suporte a estes países para outro tipo de doenças [...] têm um impacto” na capacidade dos sistemas de saúde responderem quando surge uma epidemia, sustenta.

É neste contexto que Rita Magano admite sentir “um certo sentimento de incapacidade”, apesar do trabalho desenvolvido no terreno, perante a possibilidade de os esforços não serem suficientes para impedir que “uma parte da população mundial desapareça”.

“Cada vida é igualmente importante, independentemente de ser num país africano ou num país europeu”, defende, considerando que a empatia não pode ficar limitada ao que acontece dentro das fronteiras de cada país.

"Gostava que a empatia não se perdesse, não se esgotasse naquilo que se passa ao redor de nós, do nosso país, é preciso que a gente se preocupe, que as pessoas, mesmo que não consigam fazer mais do que partilhar informação, que se importem com isso", sublinha lembrando que os fluxos migratórios e as próprias epidemias mostram como os problemas de saúde pública ultrapassam fronteiras.

“Que não vivamos fechados na nossa caixinha”, afirma a médica, que descreve o trabalho dos profissionais de saúde no terreno como algo que exige “uma certa preparação mental e uma adaptação numa fase inicial”.

“Não há um truque mágico” para lidar com essas situações, explica, apontando o trabalho de equipa, a partilha e a possibilidade de dar espaço aos profissionais “para conseguirem chorar, se for preciso, ficarem angustiados”.

A resposta inclu, por isso, apoio de saúde mental, cuja adesão é significativa perante a pressão diária "de perder doentes que se esperava salvar", mesmo que outros casos, como refere, "tragam alento".

No caso das equipas internacionais, as rotações destes profissionais têm sido de seis a oito semanas, depois de períodos em que chegaram a trabalhar praticamente todos os dias, cerca de 12 horas por dia, nos centros de tratamento de Ébola. Mas as equipas nacionais enfrentam uma realidade mais complexa.

"Estamos a falar de médicos, enfermeiros e, principalmente, higienistas(...). Precisam de fazer sessões de grupo para falarem daquilo que vivem, que não é só a realidade dentro do centro de tratamento, eles voltam todos os dias para as suas casas", onde "têm que saber gerir também a parte familiar e comunitária", enfrentando por isso uma realidade "bem mais complexa e bem mais dura", conclui.

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