O 10.º Relatório sobre o Oceano do programa europeu Copernicus, divulgado hoje, dá conta do “ritmo alarmante” de aquecimento e das suas consequências abrangentes para a vida marinha, o litoral e comunidades de todo o mundo.
“O oceano está a transformar-se diante dos nossos olhos: O aquecimento, a subida do nível do mar e a degradação dos ecossistemas são sinais interligados de mudanças significativas e de longo prazo. É nossa responsabilidade construir a capacidade permanente de antecipar esta transformação”, indica Pierre Bahurel, diretor-geral da Mercator Ocean International, que produziu o relatório, citado num comunicado do Copernicus – Programa de Observação da Terra da União Europeia (UE).
Com contributos de 125 cientistas de todo o mundo, o 10º Relatório sobre o Estado do Oceano (OSR, na sigla em inglês) “utiliza os dados mais recentes de satélite, ‘in situ’ e de modelação” para revelar “a escala e o ritmo da mudança em curso no oceano”.
Segundo o relatório, o aquecimento do oceano acelerou desde 1960 e em 2025 este absorveu “um recorde de mais 23 zettajoules (aproximadamente 40 vezes a energia que o mundo inteiro consumiu nesse ano)”, o nível médio global do mar subiu entre 3,5 e 4,1 milímetros (mm) por ano entre 1999 e 2025, mas o aumento entre 2012 e 2025 oscilou entre 3,9 e 4,5 mm/ano, além disto, entre 1985 e 2025, “o oceano tornou-se cerca de 17% mais ácido”.
“À medida que o oceano absorve mais calor, os efeitos propagam-se por todo o sistema marinho”, indica o Serviço Marinho Copernicus, explicando que as “águas mais quentes alimentam as ondas de calor marinhas e podem intensificar as tempestades, perturbar os ecossistemas e contribuir para a elevação do nível do mar através da expansão térmica e do degelo terrestre”.
Na Europa, os mares regionais em particular estão sob intensa pressão, com algumas regiões a mudarem mais rapidamente do que outras.
“A subida do nível do mar no Mediterrâneo não é uniforme nem linear. O Mediterrâneo Ocidental tem vindo a acelerar desde o início dos anos 2000, enquanto a bacia Oriental acelerou acentuadamente desde 2018”, refere a oceanógrafa física Federica Borile, da Universidade de Bolonha, Itália, citada no comunicado.
A investigadora acrescenta que tal tem de ser tido em conta na necessária adaptação das comunidades costeiras, salientando que conhecer “a dinâmica local do nível do mar é extremamente importante no planeamento para enfrentar riscos futuros”.
Na linha da frente desta crise estão os Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (PEID), destacando o relatório igualmente a situação nas regiões polares.
“Talvez em nenhum outro lugar a ligação entre as alterações oceânicas e a vulnerabilidade humana seja tão clara” como naqueles Estados, cujas “economias, infraestruturas e meios de subsistência estão intimamente ligados ao mar”.
O estudo indica que todas as Zonas Económicas Exclusivas (ZEE) dos PEID são afetadas pelo aquecimento desde 1960 e que 65% da área combinada daquela zona “tem estado exposta à aceleração da subida do nível do mar desde 1999”.
Nota ainda que “quase 28% desta área contém recifes de coral vulneráveis, ameaçados ou em perigo crítico de extinção”, ecossistemas que “sustentam a pesca, o turismo e a proteção costeira, podendo representar mais de 20% do PIB (produto interno bruto) em alguns PEID”.
No caso das regiões polares, o OSR revela alterações profundas no gelo marinho, na física oceânica e nos ecossistemas.
No Ártico, o gelo marinho está a recuar à medida que a erosão costeira se intensifica, tendo o Grande Ecossistema Marinho do Mar de Barents perdido “70% da sua extensão de gelo desde 1982”, refere, adiantando que, “na Antártida, em 2022, a quantidade excecionalmente baixa de gelo marinho coincidiu com uma falha reprodutiva numa escala sem precedentes entre os pinguins-imperador”.
Karina von Schuckmann, diretora do relatório, destaca que, além de fornecer um registo científico, o estudo tem mostrado “como a observação, a modelação e a previsão contínuas, bem como a colaboração científica, podem ajudar as sociedades a compreender o que está a mudar, onde e porquê, a antecipar os riscos futuros e a preparar-se para as suas consequências”.