Pelo menos 64 mulheres morreram por rutura uterina num total de 103 casos no primeiro semestre, na província moçambicana de Nampula, norte do país, com ex-ministro da Saúde Ivo Garrido a pedir ações concretas para reverter o cenário.
Segundo dados avançados pelo médico ginecologista obstetra do Hospital Central de Nampula (HCN) Diniz Viegas, dos 64 óbitos 49 são relativos à mortalidade materna e 15 com a complicação obstétrica, com o responsável a classificar a situação como uma “calamidade”.
“Quando nós recebemos uma hemorragia, sobretudo a rutura uterina, é uma calamidade para todo o profissional”, disse o médico e responsável pela maternidade do HCN, durante uma reunião de reflexão sobre as complicações obstétricas.
Segundo Diniz Viegas, a gravidade da situação não se limita às mortes maternas, uma vez que muitas mulheres sobrevivem após perderem o útero, enquanto os bebés não resistem às complicações provocadas pelo parto obstruído e pela demora no acesso ao atendimento especializado.
“Essas mulheres perderam o útero, perderam os bebés. Portanto, não têm bebé, não têm útero e não têm esperança de ser mães”, lamentou o médico, acrescentando que 97% dos bebés associados aos casos apresentados nasceram mortos.
O médico defendeu o reforço da capacidade cirúrgica fora do HCN, através da instalação de pequenos blocos operatórios junto a maternidades de centros de saúde estratégicos na província, bem como a expansão das maternidades nos bairros mais populosos da cidade de Nampula, para reduzir a pressão sobre o hospital central.
O número de óbitos levou o governo provincial a reunir, em caráter de emergência, médicos do HCN, responsáveis do setor da Saúde e parceiros, para analisar as causas das ruturas uterinas, os atrasos nas referências e as medidas necessárias para acelerar o atendimento às mulheres com complicações obstétricas.
Participando na reunião, o antigo ministro da Saúde Ivo Garrido defendeu uma intervenção urgente para travar as mortes, apelando a que a resposta não se limite às infraestruturas e equipamentos, devendo incluir a melhoria da qualidade e da humanização do atendimento prestado às mulheres nas unidades sanitárias.
“Temos de utilizar a qualidade do atendimento, temos de fazer tudo para os nossos trabalhadores de saúde”, afirmou Garrido, defendendo a necessidade de reforçar a capacitação dos médicos e demais profissionais envolvidos na assistência obstétrica, para que estejam mais bem preparados para reconhecer e responder rapidamente às complicações durante o parto.
Garrido defendeu que a dimensão da situação deve levar o Governo a ponderar a declaração de um estado de emergência para a saúde materna em Nampula, como forma de mobilizar recursos e acelerar medidas destinadas a travar as mortes provocadas pelas complicações obstétricas.
O antigo governante apelou ainda aos profissionais de saúde e às autoridades para assumirem a situação como uma prioridade e iniciarem imediatamente as ações possíveis, incluindo a melhoria da velocidade de atendimento, formação contínua das equipas e o reforço da capacidade cirúrgica.
Garrido defendeu igualmente uma avaliação de curto prazo que permita medir os resultados das medidas adotadas e ajustar a resposta à dimensão do problema.
Por seu turno, o governador de Nampula, Eduardo Abdula, defendeu respostas rápidas à situação, considerando que os dados apresentados pelos profissionais de saúde exigem uma intervenção articulada entre o Governo, os trabalhadores da saúde e os parceiros, sobretudo para reduzir o tempo entre o surgimento da complicação e o atendimento especializado.
O chefe do executivo provincial apontou ainda a necessidade de reforçar as infraestruturas e os meios disponíveis para a saúde materno-infantil, bem como melhorar os mecanismos de referência, de modo a evitar que mulheres em situação de emergência percorram longas distâncias antes de receberem cuidados capazes de salvar as suas vidas e a dos bebés.