Moçambique estima registar seis milhões de casos de doenças sensíveis a mudanças climáticas, com destaque para a malária, meningite e diarreia, devido aos impactos do fenómeno meteorológico El Niño, previsto para o período 2026-2027, foi hoje avançado.
“Prevê-se que em Moçambique sejam registados mais de seis milhões de casos ou episódios relacionados com doenças sensíveis a mudanças climáticas”, disse Américo José, chefe da Repartição de Monitoria e Análise de Cenários do Observatório Nacional de Saúde, do Instituto Nacional de Saúde (INS), durante o 13.º Fórum Nacional de Antevisão Climática (FNAC-XIII), em Maputo.
O evento, realizado em colaboração com o Ministério das Comunicações e Transformações Digitais (MCTD), visou divulgar a previsão climática sazonal para a época chuvosa e ciclónica 2026/2027 e os cenários previstos para os setores hidrológico, agrícola, da saúde pública, das estradas, da energia e da gestão do risco de desastres.
Segundo Américo José, as autoridades de Saúde moçambicanas estão a intensificar medidas de sensibilização junto das comunidades para o uso de redes mosquiteiras e lavagem permanente das mãos, face às previsões.
“Assim, poderão reduzir o risco de infeção por diarreia, assim como cólera. A implementação dessas intervenções, incluindo a vacinação, por exemplo, contra a cólera, já tem sido feita em algumas províncias, com a tendência de termos uma possível cobertura, não em todo o país”, frisou o representante do INS.
Dos seis milhões de casos previstos, prevê-se que a malária contribua com mais de 4,5 milhões de casos, seguida de febres, com 1,3 milhões, explicou Américo José, acrescentando que as províncias da Zambézia e de Sofala, no centro do país, poderão ser as mais afetadas.
As autoridades moçambicanas avançaram ainda hoje que estão a reforçar medidas para mitigar os efeitos da seca severa e da escassez de água, incluindo previsões meteorológicas mensais, face aos impactos do fenómeno El Niño durante a época chuvosa 2026/2027.
Outras ações estão relacionadas com a elaboração do plano de mitigação dos impactos do fenómeno El Niño no Ministério da Agricultura, visando reduzir os impactos nas famílias residentes em zonas semiáridas, adiantou o diretor nacional da Agricultura, Jabula Zibia.
“Isso vai fazer com que os produtores possam aproximar-se um pouco mais das zonas com humidade para que possam ter as produções que esperamos”, explicou.
Zibia apontou também a elaboração do plano de mitigação na gestão dos recursos hídricos para maximizar o uso de furos de água para gado e para irrigar as pequenas hortas nas zonas que poderão sentir os impactos do El Niño.
“Nesta época vamos recomendar, segundo as previsões que vimos, o uso de variedades de ciclo curto para as zonas onde vamos ter limitação de precipitação”, acrescentou o diretor nacional da Agricultura, reforçando com orientações para a produção de culturas tolerantes à seca.
O alerta surge no mesmo dia em que uma análise técnica de organizações moçambicanas e internacionais estimou um agravamento de 55% da insegurança alimentar aguda até março de 2027, para 1,84 milhões de pessoas, devido ao conflito armado no norte do país, ao fenómeno El Niño e ao esgotamento das reservas alimentares.
A previsão consta de uma análise da Classificação Integrada das Fases da Segurança Alimentar, coordenada pelo Secretariado Técnico de Segurança Alimentar e Nutricional, que aponta para um agravamento face aos atuais 1,19 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar aguda.
O Governo moçambicano já tinha alertado para potenciais impactos do fenómeno El Niño em pelo menos 52 distritos das regiões sul e centro do país, adiantando estar em preparação de um plano de ação para mitigar os efeitos da seca e da escassez de água.