O ministro da Saúde moçambicano alertou hoje para a falta de profissionais com perfis ajustados às necessidades do setor, pedindo uma aposta em áreas prioritárias de formação e melhores mecanismos de retenção e distribuição dos quadros.
"Temos que analisar a retenção dos recursos humanos, também costuma ser um desafio que nós temos enfrentado nos últimos tempos. Mas também tem o assunto que tem a ver com a formação dos mesmos recursos humanos", admitiu Ussene Isse, na abertura da 11.ª Conferência Anual do Observatório de Recursos Humanos para a Saúde em Moçambique.
O governante apontou ainda a distribuição desproporcional dos profissionais de saúde entre as zonas rurais e urbanas como outro desafio que precisa de ser ultrapassado.
"Este é um desafio que, colegas, temos que resolver com urgência no setor da saúde, a distribuição dos recursos humanos", afirmou.
O ministro referiu ainda a disparidade entre o rácio de profissionais de saúde e a população, pedindo que se acelerem as medidas para melhorar a situação, o que, acrescentou, passa também pela absorção da mão-de-obra já existente.
Ussene Isse criticou o aumento da formação de profissionais em áreas que não constituem prioridade para responder às necessidades epidemiológicas do país, defendendo uma aposta em cursos que permitam formar os perfis de que o Sistema Nacional de Saúde (SNS) necessita.
"Começamos a ter áreas de maior concentração em detrimento daquelas que precisamos com urgência para resolver os problemas do nosso povo", reconheceu.
Segundo o governante, o país conta atualmente com 75 mil profissionais de saúde, dos quais pelo menos 168 exercem funções nos serviços centrais do Ministério da Saúde e não na prestação direta de cuidados nas unidades sanitárias, situação que, admitiu, exige uma análise à afetação dos recursos humanos, numa altura em que o setor continua a enfrentar carências de pessoal.
"Não podemos ter protecionismo se queremos resultados, colegas. Temos que ter coragem. A análise funcional é importante, que é para ver se é aquilo que nós queremos", frisou.
Isse defendeu também uma aposta no uso das tecnologias para produzir evidências face às complexas transformações epidemiológicas e demográficas globais, que agravam o quadro das doenças emergentes.
Por sua vez, o representante da Organização Mundial da Saúde (OMS) em Moçambique, Severin von Xylander, criticou a fraca contratação dos profissionais do setor, num país com enormes necessidades em recursos humanos para a saúde, defendendo uma maior coordenação entre os ministérios responsáveis pela matéria para ultrapassar o desafio.
"Não é aceitável que um país com enorme carência de profissionais de saúde não tenha capacidade de contratar todos os quadros formados e disponíveis no mercado de trabalho. A médio prazo, será necessário avançar com o processo de ajustamento para uma transformação progressiva da oferta de formação, com maior aproximação entre as instituições de ensino em saúde e as necessidades do Sistema Nacional de Saúde", referiu Xylander.
Já o representante do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), Daniel Williams, considerou os profissionais de saúde a base de qualquer sistema sanitário "forte e resiliente", por transformarem políticas, conhecimento e investimento em serviços concretos para a população, defendendo uma formação de recursos humanos alinhada com as evidências produzidas no país.
Williams reiterou o compromisso da instituição em apoiar Moçambique no reforço da formação dos profissionais do setor.