A Organização Mundial de Saúde (OMS) alertou hoje que há cadeias de transmissão desconhecidas do vírus do Ébola na República Democrática do Congo (RDCongo), mostrando preocupação com a maioria das mortes serem registadas nas comunidades.
"Ainda existem cadeias de transmissão que desconhecemos", declarou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, numa altura em que a epidemia ultrapassou o "limiar crítico" de 6.000 casos confirmados e mais de 3.000 mortos, afetando 60 zonas de saúde em seis províncias do país africano.
Num comunicado, a agência das Nações Unidas e os seus parceiros mostraram-se preocupados "com o facto da maioria das mortes continuar a ocorrer nas comunidades, em vez de nos centros de tratamento, e de afetar pessoas que não tinham sido identificadas como contactos".
Perante este cenário, o plano de resposta liderado pelo Governo para os próximos seis meses requer 1,3 mil milhões de dólares (cerca de 1,12 milhões de euros), avança a organização.
O diretor-geral da OMS apelou aos Estados-membros para que "aumentem e acelerem" as suas contribuições financeiras.
"Vamos pôr fim a esta epidemia. A questão é saber com que rapidez e quantas vidas serão perdidas até lá", advertiu, acrescentando que "quanto mais tempo demorar, maior será o custo em vidas humanas e recursos".
De acordo com a OMS, apesar da crise sanitária, as escolas reabriram na terça-feira nas áreas afetadas, um passo que é classificado como fundamental para as crianças.
A ONU e parceiros reforçaram a prevenção do Ébola nas escolas da RDCongo com campanhas de sensibilização e saneamento, tendo já capacitado 150 formadores para instruir mais de 18.000 profissionais de educação.
Contudo, dois terços das escolas nas zonas afetadas ainda carecem de apoio em água e higiene.
"A epidemia de Ébola acrescenta um risco adicional em zonas onde cerca de dois milhões de crianças frequentam a escola", lê-se na nota.
Como a educação recebeu menos de 25% dos fundos necessários, o Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) alertou que a falta de verbas ameaça aumentar o abandono escolar e expor as crianças a maiores riscos de proteção, num duplo desafio de conter o vírus e manter a aprendizagem.
De acordo com o último relatório publicado pelo Instituto Nacional de Saúde Pública (INSP) da RDCongo, com dados recolhidos até 31 de agosto, um total de 3.007 pessoas morreram devido à doença, que tem uma taxa de letalidade de 48,6%.
A estirpe Bundibugyo do Ébola, responsável pela atual epidemia, não tem tratamentos específicos, embora a OMS esteja a trabalhar em duas vacinas que iniciaram a fase um de testes em humanos e, até à data, têm mostrado resultados promissores, mas o seu desenvolvimento pode demorar vários meses.
Esta epidemia é já a segunda mais mortífero da história, ultrapassando a que ocorreu na mesma região entre 2018 e 2020, embora ainda esteja longe da mais grave de que há registo, que causou cerca de 11.000 mortes e 28.000 infeções na África Ocidental entre 2014 e 2016.
A atual epidemia alastrou também ao vizinho Uganda, onde a OMS declarou o fim do surto em 26 de agosto, depois de registar 20 casos confirmados, incluindo 15 importados da RDCongo, entre os quais se registaram duas mortes.