SAÚDE QUE SE VÊ

Ébola: MSF alerta para falta de apoio adequado às comunidades na RDCongo

Lusa
24-08-2026 11:16h

A Médicos Sem Fronteiras (MSF) alertou hoje que as comunidades "não estão a receber apoio adequado" para conter a doença do Ébola na República Democrática do Congo (RDCongo), que já causou 2.642 mortes e 5.514 casos.

Num comunicado, a organização declarou que "esta epidemia tornou-se na maior e mais mortífera da história do país e continua a propagar-se a um ritmo alarmante nas comunidades que já enfrentam conflitos, violência, deslocações e fome, entre outras emergências de saúde, no seu quotidiano".

Para conter a doença no país africano, a MSF disse que a formação de profissionais de saúde e líderes comunitários sobre a detenção de casos, medidas de prevenção e controlo deve "ser urgentemente reforçada nas comunidades afetadas pela epidemia".

Após 100 dias de se ter declarado a epidemia de Ébola na RDCongo, as autoridades congolesas registaram hoje 5.514 casos confirmados e 2.642 mortes, uma taxa de letalidade de 47,9%.

O presidente internacional da MSF, Javid Abdelmoneim, afirmou que a "epidemia continua a alastrar-se, avançando mais depressa do que a resposta consegue acompanhar", acrescentando que "é necessária uma melhor deteção, isolamento seguro para as pessoas doentes e os seus contactos, e apoio aos profissionais de saúde".

No campo de deslocados de Rho, na província de Ituri - onde se concentram 83,6% dos casos, segundo as autoridades congolesas -, líderes comunitários e a MSF uniram forças para conter o Ébola entre quase 50 mil pessoas, sendo que o trabalho desenvolvido focou-se na prevenção e no incentivo ao diagnóstico precoce.

"Quando o Ébola chegou, não esperámos. Falámos com as famílias, ouvimos os seus receios e encorajámos as pessoas com sintomas a procurar cuidados de saúde", contou o líder comunitário local Ezrome Kiza Lumani.

Apesar destes esforços, mais de 60% das mortes no país continuam a ocorrer fora dos centros de tratamento, com o vírus a propagar-se rapidamente para novas áreas.

Diante deste cenário, a gestora do programa de emergência da MSF em Ituri, Trish Newport, apelou para que haja mais profissionais de saúde especializados na doença dentro das comunidades afetadas e "não só dentro dos centros de tratamento".

Segundo o documento, atualmente, mais de 1.400 profissionais da organização estão a apoiar a resposta na RDCongo, operando seis centros de tratamento e gerindo mais de 430 camas.

Com mais de 1.900 doentes admitidos e 720 casos confirmados, a organização insistiu que a Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde congolês devem expandir a formação local para reforçar a resposta rápida.

A atual epidemia já é a segunda pior da história e a maior na RDCongo, tendo ultrapassado a que também ocorreu na mesma região congolesa entre 2018 e 2020, embora ainda fique longe da mais grave registada até hoje, que provocou 11.000 mortes e 28.000 infeções na África Ocidental entre 2014 e 2016.

No entanto, a epidemia atual é também a de crescimento mais rápido desde a sua declaração em relação a qualquer surto anterior, pelo que o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, alertou que tem potencial para atingir os números da epidemia da África Ocidental.

Segundo recentes informações da OMS, o vírus do Ébola começou a circular no leste da RDCongo em fevereiro, embora uma investigação publicada na revista Science, no final de julho, tenha sugerido que as primeiras infeções teriam ocorrido ainda antes, pelo menos em janeiro.

Após a declaração da epidemia em Ituri, o vírus propagou-se para o vizinho Uganda, país que se declarou "livre do Ébola" em 28 de julho, após registar 20 casos confirmados, incluindo 15 casos considerados importados da RDCongo, entre os quais se contaram duas mortes.

A epidemia está associada à estirpe de Bundibugyo, cuja taxa de letalidade oscila entre os 30% e os 50% e para a qual não existe vacina autorizada nem tratamento específico, segundo a OMS.

O vírus do Ébola transmite-se por contacto direto com fluidos corporais de pessoas ou animais infetados e provoca febre hemorrágica grave, vómitos, diarreia e hemorragias internas.

MAIS NOTÍCIAS