O Centro Africano de Controlo e Prevenção de Doenças (Africa CDC) vai usar a rede Starlink no leste da República Democrática do Congo (RDCongo) para acelerar o combate ao Ébola, anunciou o hoje o diretor-geral da instituição.
Segundo Jean Kaseya, a medida visa equipar os agentes de saúde comunitários com telemóveis e ferramentas digitais para garantir o envio imediato de dados sobre os novos contágios a partir do terreno.
"Está na altura da OMS [Organização Mundial da Saúde] e de África começarem o estudo para verificar (...) se o vírus não está a sofrer mutações, porque o nível de gravidade deste surto de Bundibugyo é sem precedentes", declarou Jean Kaseya numa conferência de imprensa, acrescentando que as organizações vão iniciar um estudo para "perceber se houve um mutação".
Para Kaseya, a epidemia, declarada em 15 de maio no leste da RDCongo, "está a expandir-se", somando já 51 zonas de saúde afetadas, perante um cenário em que mais de de 70% dos cerca de 75 novos casos diários surgem fora das listas de rastreio de contactos.
O diretor-geral do África CDC defendeu que é necessário "uma ação forte agora e não para amanhã", alertando que o aumento de camas em centros de tratamento é insuficiente sem intervenção local.
"Podemos ter até 10.000 camas, mas, se não pararmos este surto a nível comunitário, não significa nada", disse, revelando que na província de Ituri foi inaugurado um novo centro de tratamento com 100 camas.
Kaseya, que esteve reunido na quarta-feira com o chefe de Estado congolês, Félix Tshisekedi, apresentou a estratégia acordada entre as autoridades continentais e o Governo congolês, que inclui um plano de sete pontos focado na ação direta em 6.542 aldeias da província de Ituri, na integração e pagamento de profissionais de saúde públicos e privados, na reabertura segura das escolas e no apoio a 270 mil deslocados em campos.
O plano contempla ainda o reforço da vigilância transfronteiriça com a República Centro-Africana, o Sudão do Sul e Uganda, além da expansão da vacinação e do uso massivo do antirretroviral Remdesivir nas províncias de Ituri e Kivu do Norte.
No plano financeiro, Jean Kaseya assegurou que "o dinheiro não é o problema", destacando uma verba adicional de 242 milhões de dólares (cerca de 210 milhões de euros) garantida pelos Estados Unidos e uma contribuição recente de dois milhões de dólares (cerca de 1,7 milhões) por parte da Argélia.
"Não podemos dizer que não existe dinheiro para responder a este surto. É a primeira vez que vejo parceiros e países africanos a unirem-se", concluiu o diretor-geral do África CDC.
As autoridade da RDCongo elevaram hoje o número de mortes pelo Ébola para 1.801 e os casos confirmados para 3.973, após o surto declarado no leste do país em 15 de maio.
O atual surto tornou-se, na sexta-feira, o segundo com mais casos registados da história e a maior em termos de infeções na RDCongo, depois de ter ultrapassado o que também ocorreu no entre 2018 e 2020, que causou 2.299 mortes e 3.481 casos.
No entanto, ainda está longe de ser a pior epidemia do vírus Ébola da história, que ocorreu na África Ocidental entre 2014 e 2016 e causou cerca de 11.000 mortos e 28.000 casos.
O surto na RDCongo, o 17.º a afetar o país, é aquele que apresenta o crescimento mais rápido de contágios em comparação com qualquer outro desde a sua declaração, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Quase três meses após o início do surto, os novos casos estão a duplicar em alguns focos, afirmou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, numa publicação na rede social X, após se ter reunido com responsáveis em Kinshasa.
Esta é a segunda visita do diretor-geral da OMS a este país da África Central desde que o surto foi declarado.
O vizinho Uganda, para onde a doença também se propagou, declarou o país "livre do Ébola" em 28 de julho, após 20 casos confirmados, incluindo 15 casos considerados importados da RDCongo, registando-se duas mortes.