SAÚDE QUE SE VÊ
Magnific

Associação diz que taxa para forçar saída dos hospitais não resolve problema

Lusa
04-08-2026 12:29h

A Associação Nacional de Cuidados Continuados (ANCC) considera que a criação uma taxa semanal para forçar a saída dos hospitais de pessoas com alta clínica não resolve o problema, que só terá solução com mais novas camas na rede.

“Em teoria, até poderia parecer uma medida que fizesse algum sentido, mas depois se olharmos para o conjunto acaba por não fazer”, disse à Lusa o presidente da ANCC, José Bourdain, a propósito da sugestão do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV) de uma taxa semanal para forçar a saída destes utentes, revelada hoje pelo Público.

O jornal cita um parecer do CNECV, que reconhece algumas das barreiras que travam a saída destes utentes, como a distância a que surgem as vagas e o valor da comparticipação a pagar pelo utente, sugerindo uma taxa semanal progressiva “em prol da equidade”, pois as camas ocupadas por estas pessoas são necessárias para outros internamentos.

Questionado pela Lusa, o presidente da ANCC recorda que quando a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados foi lançada havia a ideia de proximidade, “que se foi perdendo”, passando depois os governos a preferir unidades de maior dimensão, “para maior diluição de custos” e para “pagarem o menos possível às unidades”.

“Devido à distância, as famílias não querem e os próprios doentes não querem ir para longe e, portanto, as pessoas permanecem no hospital”, reconheceu o responsável, insistindo: “a lógica da proximidade faz sentido e funcionava”.

José Bourdain lembra que, na tipologia de convalescença, o utente não paga, só pagando na média e na longa duração, e defende que a forma de cálculo da comparticipação deveria se revista.

“Na realidade, nos cuidados continuados, e eu estou sempre a reclamar disso, as famílias não conseguem pagar e muitas têm dívidas às unidades”, lembrou, admitindo que o serviço de cuidados continuados pudesse não ter custos para o utente, como acontece atualmente nas unidades de convalescença.

E acrescentou: “Ficaria muito mais barato ao Estado do que como as coisas estão a funcionar”.

Uma diária hospitalar ronda os 383 euros, enquanto na RNCCI a diária pode variar entre os 87 e os 120 euros, dependendo da tipologia.

“Se calhar, poderia equacionar-se a possibilidade de não se pagar [na média duração] e, depois, na longa duração, manter-se o pagamento, mas com um valor, de facto, comportável para as famílias, como acontece, por exemplo, nas respostas sociais”, sugeriu.

O responsável insiste que o que trava a saída das pessoas dos hospitais é a falta de camas na rede de cuidados continuados: “Se a ideia é libertar camas de hospitais, então temos de ter um número de camas suficiente na rede a funcionar, um número de camas suficientes em lares de idosos”.

José Bourdain voltou a lembrar que inicialmente se falava em 5.500 camas para cuidados continuados (incluindo a área da saúde mental) e que cerca de metade ficou pelo caminho.

"A região de Lisboa e Vale do Tejo, que é a mais deficitária do país, (...) vai continuar com um grave problema. Mais de duas mil camas estavam previstas só para esta região. Avançaram um pouco mais de 100", exemplificou.

MAIS NOTÍCIAS