Mais de 55.000 previsíveis casos de cancro não foram detetados em sete países ricos durante os primeiros nove meses da crise sanitária causada pela pandemia de covid-19, indica um estudo divulgado na revista The Lancet Oncology.
O trabalho, da Agência Internacional de Investigação sobre o Cancro (IARC) da Organização Mundial da Saúde, de um consórcio internacional de agências de combate ao cancro e de organizações de saúde pública, foi publicado na semana passada.
Foram analisados dados de 2,6 milhões de doentes dos registos de cancro na Austrália, Canadá, Dinamarca, Irlanda, Nova Zelândia, Noruega e Reino Unido, tendo sido comparado o número de casos diagnosticados durante aquele período com o número que poderia ter sido previsto com base nas tendências pré-pandemia.
Os autores estudaram as tendências de sete tipos comuns de cancro (cólon, reto, pulmão, próstata, mama, ovário e melanoma) desde o início de 2015 até ao final de 2020 e estimam que, entre 1 de abril e 31 de dezembro de 2020, no total, “houve menos 55.713 casos diagnosticados do que os 347.666 previstos”, ou seja, um sexto dos casos não teria sido diagnosticado, segundo a agência France-Presse.
As diminuições mais significativas nos diagnósticos registaram-se durante os primeiros quatro meses das restrições sanitárias mais rigorosas, como os confinamentos, e afetaram mais o cancro da próstata (-24%), da mama e o melanoma (ambos com uma redução de 18%), ao passo que o cancro do pulmão (-8%) e o do ovário (-4%) parecem ter sido menos afetados.
A nível dos países, algumas das maiores reduções aconteceram no Reino Unido e na Irlanda, enquanto na Noruega e na Nova Zelândia se registaram menos perturbações e um regresso mais rápido aos níveis de diagnóstico esperados.
Os investigadores sugerem que as diferenças entre países podem refletir variações no acesso aos cuidados de saúde, na resiliência dos sistemas de saúde e na continuidade dos serviços de rastreio e diagnóstico do cancro durante a pandemia, refere a AFP.
Consideram ainda que são necessários mais estudos para determinar se alguns doentes que não receberam um diagnóstico na altura foram diagnosticados com cancro mais tarde e, em caso afirmativo, se a doença estava numa fase mais avançada.
Em fevereiro de 2021, o diretor regional da OMS para a Europa, Hans Kluge, declarou, indica a AFP, que o impacto da pandemia de covid-19 no tratamento do cancro tinha sido "catastrófico", depois de a organização ter observado interrupções nos serviços de oncologia num terço dos países da região.