SAÚDE QUE SE VÊ

Não olhem para cima

LUSA
04-06-2026 05:00h

A localidade de Casais das Boiças, concelho da Azambuja, é atravessada por duas linhas de alta tensão e escapou por pouco de uma terceira. Há pessoas a apontar para cima para justificar os casos de cancro.

Passado o susto de a povoação ficar fechada num triangulo de alta voltagem, a eventual relação com a saúde não deixou no entanto de ser tema. Debruçada na janela, Maria da Luz Santos enumera: “A minha mãe cancro no pâncreas, o meu marido no fígado e eu já tive no peito”.

Em 2020, a população revoltou-se contra o projeto de mais postos de alta tensão, desta vez vindos da central fotovoltaica da herdade da Torre Bela em direção à subestação de Rio Maior. Demorou anos, mas conseguiu impedir.

António Loureiro, mentor do protesto, hoje com 70 anos, reformado, fala à Lusa das “histórias de há muitos anos” relacionadas com a saúde. Há estudos num e noutro sentido de que “a radiação das torres poderá provocar o cancro”, diz.

Silvino Lúcio, presidente da Câmara da Azambuja e que também esteve envolvido no processo de contestação à terceira linha de alta tensão, é mais perentório. “Não há nada que prove o cancro”, diz.

“Dou o exemplo de Odivelas, no centro tem uma linha de muito alta tensão, que já lá estava” quanto tudo “ficou tapado de habitações”, afirma, acrescentando que também se quis relacionar as antenas de telemóveis com problemas e confirmou-se que era falso.

Mas outra coisa é também certa, diz, “não é bonito e ninguém gosta de ter uma linha de alta tensão perto de casa”.

Maria da Luz Santos tem uma no quintal. A filha mora ao lado, encostada ao metal da torre. À Lusa diz que uma das casas foi construída já a linha ali passava, mas “disseram que não havia problema”.

“Ponho-me a pensar nos meus netos. Mas gastámos o dinheiro aqui, para onde é que vamos?”, questiona.

A mãe morreu com 67 anos, o marido com 47. Ela foi operada há quatro anos. “Eu acho que isto é tudo derivado a estes postes, a estas energias, o brilho que isto faz! E tenho a minha família a viver ali naquela casa, tenho dois netos, a minha filha e o meu genro e andamos sempre a pensar que poderá também acontecer”, diz.

Maria da Luz fala de uma prima que morava ao lado, que também morreu de cancro, e remata afirmando: “Isto não é nada bom para a nossa saúde”.

Quem não tem dúvidas sobre os malefícios das linhas é Zélia Nobre, vizinha de Maria da Luz. “Aquilo é tão mau que nem os passarinhos ali poisam”.

Também à Lusa faz um diagnóstico rápido da situação: “Sinto a minha cabeça a mil. Tanto que eu morava no primeiro andar e tive de arranjar casa no rés-do-chão porque isto faz-me uma radiação na minha cabeça”.

Zélia reformou-se por doença. Diz que não é cancro, mas afiança: “Há carradas de cancro, casa sim casa sim, e em algumas mais do que um por família”.

A ela aflige-a sobremaneira o barulho das linhas. “Com a humidade é horrível”. E Maria da Luz: “Sabemos sempre quando vai chover, é incomodativo”.

E o vento? Nas tempestades do início do ano teve sempre medo que a torre do quintal caísse encima das casas. Maria da Luz fala de um medo que dura há décadas, fala do alívio por a terceira linha passar ao largo. E deixa um conselho, apontando para cima: “as pessoas devem esclarecer-se bem, não deixar que isto avance”.

Um trabalho universitário e uma informação da Direção-Geral da Saúde (DGS) coincidem que não há evidência sobre riscos para a saúde da proximidade das linhas de alta tensão.

O ruído que se ouve deve-se à ionização das moléculas de ar, inofensiva. E a Organização Mundial de Saúde (OMS) entende que a exposição aos campos eletromagnéticos das linhas de alta tensão só poderia ser prejudicial com valores muito elevados.

A ligação entre esses campos e leucemia infantil também não “mostrou solidez suficiente”.

A DGS aconselha que sejam impostos os limites em relação à exposição eletromagnética, constantes da Portaria n.º 1421/2004. Nessa portaria refere-se a necessidade de proteção da saúde pública “contra os comprovados efeitos adversos da exposição a campos eletromagnéticos”.

E aconselha também que no estabelecimento de novas linhas, sejam considerados vários cenários, “devendo ser dado conhecimento dos riscos associados e incentivada a participação do público na tomada de decisões”.

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