A Universidade do Porto (U.Porto) está a desenvolver um modelo para integrar a prescrição cultural nas políticas de saúde, permitindo aos médicos receitar atividades culturais a doentes com ansiedade ou depressão ligeira na região Norte a partir de 2027.
“Estamos a falar de um médico ou um psicólogo prescreverem a um paciente com ansiedade, depressão ligeira, stress ou pré-burnout a participação, por 10 semanas, em atividades em grupo que implicam sempre alguma criatividade, desenvolvidas por artistas ou mediadores culturais certificados, nos museus que integram o consórcio”, explicou hoje à Lusa a vice-reitora da U.Porto, Fátima Vieira.
A responsável revelou que o modelo está a ser “desenvolvido e testado” na própria universidade, com dois grupos de estudantes, e aguarda o financiamento da CCDR-N, pelo que “2027 poderá começar já com este projeto em marcha”.
Prescrição Cultural é o nome do projeto e do consórcio que a U.Porto lidera e que integra também a Universidade do Minho, a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Mouro, seis museus, a Direção-Geral da Saúde, a Ordem dos Médicos e a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N).
Questionada sobre se, a médio prazo, este modelo pode fazer parte do Serviço Nacional de Saúde (SNS), a vice-reitora da U.Porto disse acreditar que sim.
A responsável sustenta que, “em termos económicos, há um impacto muito visível” desta estratégia, porque “se as pessoas estiverem mais felizes escusam de tomar tantos ansiolíticos”.
“São mais produtivas também [as pessoas]. E, portanto, essa parte das vantagens, dos benefícios e do impacto que tem na própria economia também está muito bem estudada e será certamente um fator a ter em conta também pelo nosso Governo”.
Os doentes têm de ser referenciados pelas Unidades Locais de Saúde.
“Esse é também um dos passos que estamos a tomar: oferecer formação, ou pelo menos informação. Temos um curso de formação de 25 horas para médicos e psicólogos, inteiramente gratuito. Se não tiverem disponibilidade para isso, pelo menos temos uma tarde de formação para que todos percebam quais são os princípios”, garantiu Fátima Vieira.
Os facilitadores da atividade “são sempre artistas ou mediadores culturais que não querem ser psicólogos nem terapeutas mas têm um curso de formação de 52 horas que os prepara a trabalhar com grupos e a gerir também situações de ansiedade que possam surgir”.
A partir do momento da prescrição, o processo passa a ser gerido por um ‘link worker’, que pode ser um assistente social, responsável pelo acompanhamento do doente e a elaboração de um relatório.
Esse documento vai servir para que, “o médico no Serviço Nacional de Saúde possa ter todos os elementos e decidir aquilo que pode fazer”, acrescenta a vice-reitora.
A prescrição cultural já é usada noutros países mas foi um projeto dinamarquês e sueco chamado Vitamina Cultural que inspirou a U.Porto.
“Essa ideia da vitamina cultural parece muito interessante. Porque também dá uma ideia exata daquilo que é feito ou daquilo que se pode permitir fazer. Se estivermos doentes, quando tomamos uma vitamina, ficamos mais fortes, mas não ficamos necessariamente curados. O paciente poderá ficar mais forte, mas tem que continuar com a medicação e com os tratamentos que tenham sido prescritos”, explica Fátima Vieira.
Na terça-feira, no 3.º Encontro Internacional de Prescrição Cultural, a U.Porto vai falar sobre o modelo em desenvolvimento desde há três anos, a partir de inspirações do Norte da Europa, tendo em vista integrar a cultura nas políticas de saúde e bem-estar em Portugal, contribuindo para a “Estratégia Nacional de Saúde e Cultura” em preparação pela Direção-Geral da Saúde.
Para além da formação e do desenvolvimento do projeto, a U.Porto está também a “produzir evidência científica” sobre o tema.