O Fundo das Nações Unidas para Infância (Unicef) alerta que Moçambique enfrenta uma crise nutricional de "grande magnitude", estimando que cerca de 100 mil crianças menores de 5 anos vão precisar de tratamento para desnutrição aguda grave este ano.
"Moçambique enfrenta uma crise nutricional de grande magnitude, com uma das taxas mais altas de desnutrição na África subsaariana. A desnutrição aguda continua crítica, com 4% das crianças afetadas, incluindo casos graves, que representam risco imediato de mortalidade", refere aquela agência das Nações Unidas, num comunicado a que a Lusa teve hoje acesso.
Segundo a Unicef, enquanto cerca de 100 mil crianças menores de cinco anos vão necessitar de tratamento para a desnutrição aguda grave este ano, os cortes de financiamento na ajuda ao desenvolvimento têm impactado diretamente a capacidade de providenciar os suplementos, medicamentos e meios logísticos para o aprovisionamento dos serviços essenciais de nutrição e saúde para os mais afetados.
"Moçambique é um dos 22 países prioritários para obter ATPU [Alimentos Terapêuticos Prontos para Uso] e atualmente regista um défice de 18% dos recursos financeiros necessários para atender toda a demanda prevista. A pressão sobre estes serviços tende a aumentar nos períodos de escassez alimentar e após choques como ciclones, cheias, secas e surtos de doenças que reduzem o acesso a alimentos e a serviços essenciais", lê-se no documento.
Acrescenta-se que é "imprescindível" reduzir o défice de financiamento para ATPU, reforçar o tratamento e os cuidados de saúde primários para travar "mortes evitáveis" e proteger os ganhos alcançados ao longo das últimas três décadas, com a distribuição dos Alimentos Terapêuticos Prontos para Uso.
Para a Unicef, embora o acesso ao ATPU seja crucial para o tratamento eficaz da desnutrição aguda grave, o principal objetivo continua a ser a prevenção da desnutrição infantil, por isso, investir em estratégias de prevenção, como a promoção de práticas alimentares adequadas e o reforço dos sistemas de saúde comunitários, é essencial para evitar que as crianças desenvolvam desnutrição.
"No entanto, quando a prevenção não é suficiente e as crianças apresentam sinais de desnutrição, o ATPU revela-se uma solução comprovada e eficaz, permitindo uma recuperação rápida e segura, especialmente em contextos com acesso limitado a serviços hospitalares", acrescenta-se no comunicado.
Em 17 de abril, a Unicef alertou para múltiplos desafios no apoio a um milhão de vítimas das cheias em Moçambique, metade sendo crianças, classificando a situação como uma "emergência profundamente infantil".
"A Unicef necessita de 34 milhões de dólares [28,8 milhões de euros] nos próximos seis meses para chegar a 450.000 pessoas — incluindo 225.000 crianças — com serviços essenciais de água, saneamento, saúde, nutrição, educação, proteção infantil e assistência financeira. Sem esses recursos, teremos de fazer escolhas difíceis sobre quem é prioritário, quando todos são prioritários", disse à Lusa Omar Khan, responsável do projeto de Água, Saneamento e Higiene da Unicef em Moçambique.
Khan acrescentou que em muitas comunidades afetadas pela época chuvosa, as famílias passaram a recorrer a fontes de água inseguras, o que para as crianças, que são biologicamente mais vulneráveis, representa graves riscos de desenvolvimento de doenças como a diarreia, que continua a ser uma das principais causas de mortalidade infantil.
Cláudio Julaia, especialista em Emergências daquela agência da ONU, explicou que com mais de um milhão de afetados, sendo metade crianças, o país atravessa agora uma crise humanitária de grande escala "com um rosto profundamente infantil" e num país onde a idade média é de 17 anos, "uma crise desta magnitude compromete o futuro de uma geração inteira".