Um estudo que ouviu utentes e profissionais de saúde pede uma “transformação estrutural” nos cuidados de saúde primários para melhorar a coordenação com os hospitais, sobretudo nos doentes crónicos, e sublinha a importância dos planos individuais de cuidados.
O PaRIS (Patient-Reported Indicator Surveys), coordenado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e, em Portugal, pela Direção-Geral da Saúde, aponta a necessidade de alargar o plano individual de cuidados, que define os objetivos de saúde de cada utente e é uma realidade para apenas três em cada 10 doentes crónicos.
“É discutido com o médico de família, serve para negociar os objetivos de saúde que têm e pode ser partilhado com os outros médicos de família daquela unidade, mas, mais importante, com os médicos do hospital”, explicou à Lusa o subdiretor-geral da Saúde, André Peralta Santos.
O responsável refere que este plano “quase não é utilizado na partilha de informação com os hospitais” e diz que pode ajudar a melhorar a coordenação dos cuidados de saúde, vertente a que os utentes deram nota negativa no estudo que é hoje apresentado em Lisboa.
André Peralta Santos insiste na necessidade de melhorar a coordenação de cuidados, até pela recente reforma das Unidades Locais de Saúde (ULS), e diz que, mais do que olhar para cada doença isoladamente, é preciso olhar para todo o percurso do doente.
“Metade das pessoas com mais de 45 anos têm duas ou mais doenças. Portanto, pensar numa doença de forma espartilhada já não faz muito sentido”, diz o responsável.
Para sublinhar a necessidade de melhor integrar e coordenar cuidados, recorda uma frase que tem sido repetida em reuniões internas: “o SNS é bom na consulta, mas esquece-se um pouco quando o doente sai pela porta”.
“E quem tem doença crónica precisa de um sistema que acompanha o cidadão”, insiste, acrescentando: “precisamos que esta integração de cuidados [trazida pela reforma das ULS] não seja apenas administrativa, mas que seja funcional e ajude na passagem dos cuidados de saúde primários para o hospital, e vice-versa”.
O estudo ouviu em Portugal mais de 11.700 utentes e 80 unidades de cuidados de saúde primários, recolhendo indicadores de resultados e experiências em saúde partilhados pelos utentes.
Diz que os dados mostram uma equidade no acesso – “as pessoas com doenças crónicas têm experiências semelhantes às que não as têm” -, considerando que esta informação vai ao encontro da expectativa que se tem dos cuidados de saúde primários: “podem ter limitações, mas tratam todos por igual”.
Em termos de indicadores de resultados de saúde, não há grandes novidades e Portugal continua a comparar mal com os restantes países da OCDE, reflexo de um país "com uma população mais pobre e com mais desigualdades”.
Já quanto à experiência dos utentes, metade estão insatisfeitos com a coordenação dos cuidados que recebem.
O relatório aponta para a necessidade de “transformação estrutural” dos cuidados de saúde primários em três “dimensões críticas”: coordenação e gestão de cuidados, comunicação e acessibilidade e experiência e confiança.
Na coordenação de cuidados, defende-se a existência de um gestor de cuidados por utente e a generalização dos Planos Individuais de Cuidados (PIC) e, na acessibilidade, pede-se que os canais de comunicação sejam modernizados, para melhorar o acesso e reduzir os tempos de espera.
Peralta Santos diz que Portugal está “na Liga dos Campeões da Europa” no que se refere à digitalização do registo de saúde, mas reconhece que “é preciso melhorar nos serviços digitais”.
“Os serviços que temos enquanto cidadão para interagir com o SNS continuam limitados e pouco utilizados”, diz o subdiretor-geral da Saúde, lembrando que o uso de videoconsultas nos cuidados primários “é residual”.
Contudo, alerta para o risco da transformação digital trazer desigualdades e insiste na necessidade de capacitar os cidadãos para o uso das tecnologias e manter sempre aberto um canal não digital para quem quer marcar desta forma a sua consulta.
“Há uma grande percentagem da nossa população que já se sente muito à vontade com estas tecnologias. Mas, certamente, teremos uma franja da população mais idosa que não se sente confortável”, lembrou.
Outra das dimensões críticas apontadas neste relatório é a necessidade de reforçar a transparência, avaliar de forma continua as experiências dos utentes e recuperar a confiança no sistema.
“Apenas metade das pessoas que normalmente utilizam o sistema de saúde confia muito no sistema” disse Peralta Santos, alertando: “se não tivermos este capital de confiança, é muito mais difícil termos um sistema com que as pessoas se identifiquem e que estejam disponíveis (…) para o financiar”.