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Ministro alerta para impacto da desinformação no tratamento da cólera em Moçambique

Lusa
11-03-2026 12:43h

O ministro da Saúde moçambicano alertou hoje para o impacto da desinformação sobre a cólera, sublinhando que 74% das mortes provocadas pela doença ocorrem nas comunidades, porque os doentes não procuram os serviços de saúde.

"Ficamos muito preocupados. 74% da mortalidade por cólera acontece nas comunidades”, o que “significa que as pessoas não estão a ir para os hospitais”, disse Ussene Isse, ao prestar informações à Assembleia da República, em Maputo.

Segundo o governante, as unidades sanitárias dispõem de condições para tratamento imediato e eficaz da doença e pediu à população que recorra rapidamente aos serviços de saúde sempre que surjam sintomas.

Isse reforçou ainda que as autoridades continuam a trabalhar na expansão dos meios de diagnóstico e transporte de emergência para melhorar a resposta hospitalar, quando Moçambique regista mais de 7.263 infetados na atual epidemia da doença, que já totaliza 82 óbitos desde setembro, indicam dados oficiais.

Durante a sua intervenção no parlamento, o ministro da Saúde admitiu ainda que o setor enfrenta desafios no abastecimento de medicamentos e outros materiais para as unidades de saúde, resultante da combinação entre cortes no financiamento externo, um incêndio que destruiu o armazém nacional de medicamentos e o aumento dos casos de desvio de fármacos.

O governante explicou que Moçambique “perdeu cerca de 70,5% do financiamento para medicamentos”, na sequência da redução do apoio dos parceiros internacionais, situação que o Estado tem tentado mitigar, embora sem capacidade para suprir totalmente a necessidade, já que “a lacuna que está ali é enorme e o Estado nunca irá conseguir superar”.

A situação da falta de material médico nas unidades sanitárias agravou-se com o incêndio que destruiu em 23 de dezembro de 2024 o armazém central, onde estavam armazenados ‘stocks’ para três a quatro anos, uma perda total de reservas que levou o sistema a operar em regime de emergência, segundo o ministro.

O ministro da Saúde também alertou para o impacto do roubo e desvio de medicamentos no sistema público, afirmando que esta prática continua a ser um dos fatores que agravam a escassez de "produtos essenciais", mesmo quando o Estado assegura a reposição das compras.

"Mesmo que o Estado compre tudo que é medicamento, se não controlarmos em conjunto esta parte do roubo, teremos sempre falta de tudo", assinalou Ussene Isse, classificando o problema como persistente e pedindo cooperação das comunidades e dos deputados na denúncia dos envolvidos.

O ministro afirmou que o setor conhece a existência de comércio ilegal de medicamentos e tratamentos realizados fora das unidades sanitárias, mas que a falta de denúncias impede ações mais rápidas.

“Quem vende medicamento lá fora, quem trata pessoas lá fora, sabemos quem são. Mas nós não denunciamos”, declarou o ministro.

A primeira-ministra moçambicana, Maria Benvinda Levi, também disse, no parlamento, que a prioridade da ação governativa para o setor da saúde é garantir um maior acesso e qualidade na prestação de serviços de saúde à população, para assegurar que o país “tenha um capital humano saudável".

"É assim que a nossa aposta se centra na construção, reabilitação, requalificação das unidades sanitárias, sem descurar o respetivo apetrechamento em equipamentos consumíveis médicos, bem como a afetação de mais recursos humanos qualificados no Serviço Nacional de Saúde e, desta forma, reduzir a sobrecarga de trabalho", explicou.

Levi reconheceu, contudo, os desafios "conjunturais e estruturantes" que o país ainda ultrapassa para assegurar efetivamente o acesso universal a cuidados de saúde de qualidade a todos os moçambicanos.

Entre as medidas implementadas para ultrapassar estes desafios, a primeira-ministra destacou consolidação do sistema comunitário de saúde e o reforço dos mecanismos de aquisição de medicamentos e consumíveis.

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