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Profissionais de saúde moçambicanos consideram "desonestidade institucional" negar greve

Lusa
02-03-2026 12:22h

Os profissionais de saúde moçambicanos consideraram hoje ser uma "desonestidade institucional" das autoridades negar a greve no setor, acusando o Governo de ser “infantil”, e ameaçaram fechar os hospitais por três dias, a partir de sexta-feira.

“Negar a greve, minimizar os impactos ou exigir provas de uma crise pública amplamente divulgada é um ato de desonestidade institucional. O que se observa é uma tentativa sistemática de colocar os profissionais de saúde contra o povo, criar uma narrativa de normalidade, desviar o foco de má governação de falta de planeamento estratégico”, disse hoje o presidente da Associação dos Profissionais de Saúde Unidos e Solidários de Moçambique (APSUSM), Anselmo Muchave, numa conferência de imprensa em Maputo. 

Muchave apelou a reformas sérias no setor para parar com a greve, em resposta também à posição do diretor Nacional de Assistência Médica, Nelson Mucopo, que em 27 de fevereiro afirmou desconhecer se a greve anunciada e prorrogada por mais 30 dias pelos profissionais do setor está em curso, face à presença dos funcionários nos hospitais. Mucopo rejeitou ainda alegações desses profissionais que apontavam, na altura, 725 mortos por falta de assistência nas unidades sanitárias, desde janeiro, aquando do início do primeiro período de paralisação, número que subiu para 1.116 óbitos, conforme atualização apresentada hoje.

“Reconhecer essa realidade não é atacar o Estado, é exigir responsabilidade e comprimir-se com a vida humana. Negar o colapso não resolve o problema, o que temos que fazer é enfrentá-lo com transparência. Reformas sérias e diálogo estruturado é o único caminho para reconstruir um sistema que volte a servir com dignidade o povo moçambicano”, considerou Muchave.

A organização anunciou ainda que pretendem fechar todas as unidades de saúde por três dias, a partir de sexta-feira, em resposta à postura das autoridades, quando ainda vigora o segundo período de 30 dias de greve, designada de “braços cruzados”.

“Face à postura do Governo, informamos que, a partir da sexta-feira, vamos dar um final de semana prolongado a todo o profissional de saúde a nível nacional”, anunciou o também enfermeiro, responsabilizando o Ministério da Saúde pelo agravamento da situação no setor e por negar o “colapso evidente” do sistema.

Segundo o presidente da APSUSM, as conversações com o Governo continuam. Mas entretanto, esclareceu, é necessário um diálogo “sério e estrutural”, focado nos resultados e “não um diálogo vazio, um diálogo que vem praticamente só para entreter os profissionais de saúde”.

Defendeu ainda que resolver a greve passa por diálogo com soluções práticas e reformas no sistema de saúde, e “não com [a] infantilidade” com que o Governo se tem apresentado ao público: “O Governo não pode ser infantil (…). Porque não pode, por exemplo, dizer que está triste, tem que levantar a cabeça e dizer 'nós vamos colocar material médico-cirúrgico, nós vamos colocar o medicamento'”.

Anselmo Muchave pediu a intervenção do Presidente, Daniel Chapo: “Qual é a função dele neste momento quando sabe, quando recebe um relatório falso? Quando sabe que a população na rua, a população nos órgãos de informação, está a dizer que as unidades sanitárias não estão boas. Então, tem que haver uma função do Presidente”.

O ministro da Saúde moçambicano, Ussene Isse, classificou anteriormente como “uma tristeza” esta greve, admitindo haver problemas logo após o anúncio de prorrogação da paralisação.

O setor da saúde enfrenta, há quatro anos, greves e paralisações convocadas pela APSUSM, que diz abranger cerca de 65.000 profissionais de saúde de diferentes departamentos.

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