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Sociedade de Cardiologia exige "soluções urgentes e imediatas"

LUSA
26-02-2026 15:34h

A presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC) exigiu hoje “soluções urgentes e imediatas” para a resposta em cirurgia cardíaca, recordando que a organização já tinha alertado há dois anos para lacunas naquela área.

Em entrevista à agência Lusa, Cristina Gavina disse que “já em 2024, com a direção anterior, a SPC tinha reforçado a ideia de que havia necessidade de dar uma melhor resposta”, dificuldades “identificadas e comunicadas várias vezes à tutela”.

“Nós já tínhamos identificado problemas relacionados com o acesso”, nomeadamente à cirurgia cardíaca e a TAVI [Implante Transcateter de Válvula Aórtica], intervenções cada vez mais procuradas devido ao envelhecimento da população, disse a responsável, sublinhando que o aumento da procura destas intervenções “foi muito mais rápido do que a capacidade de adaptação no terreno”.

Questionada sobre o problema identificado por quatro serviços de cardiologia do Norte, que alertaram para as listas de espera, dizendo que “há doentes em risco”, Cristina Gavina disse que “todo o país tem dificuldades”.

Exemplificou com o Algarve, região para a qual foi anunciado, na revisão da rede de referenciação feita em 2023, um novo centro de referência de cirurgia cardíaca a abrir em Faro, mas que não avançou.

A presidente da SPC atribuiu o facto de o “Norte ser agora um problema” à abertura tardia do novo centro de Braga e à dificuldade do centro da ULS São João em dar resposta.

“Em 2023 a rede de referenciação foi revista e considerou-se a abertura de um terceiro centro de cirurgia cardíaca no Norte, o de Braga. Isto para aliviar o São João e permitir que o São João conseguisse ter capacidade de resposta. O problema é que isto foi dito em 2023 e estamos em 2026”, disse.

Atualmente, doentes que necessitem de intervenções nesta área são referenciados para os centros de referência da ULS São João, no Porto, ULS de Vila Nova de Gaia/Espinho, bem como da ULS Braga, onde abriu há dois meses e está a trabalhar a 20% da sua capacidade.

Mostrando-se confiante de que Braga alcançará “potencial máximo” até ao final do ano – segundo Cristina Gavina, os responsáveis têm procurado cirurgiões e outros recursos até fora do país, nomeadamente em Espanha, - a especialista alertou que a dificuldade de acesso na ULS São João continua.

Segundo a médica, a capacidade de resposta do Hospital de São João está muito aquém daquilo que deveria ser.

“O São João é, obviamente, o hospital mais diferenciado do Norte, o maior hospital do Norte, tem o serviço de cardiologia maior do Norte, mas tem muitos constrangimentos, nomeadamente financeiros. Os cortes na despesa limitam muito as intervenções”, descreveu.

Cristina Gavina, que é também diretora do serviço de cardiologia da ULS de Matosinhos, apontou que a atual lista de espera de Matosinhos para o São João para a realização de TAVI é de quase um ano e para a cirurgia cardíaca é de cerca de nove meses.

Médicos de quatro hospitais do Norte (Santo António, no Porto, Tâmega e Sousa, Matosinhos e Trás-os-Montes e Alto Douro) subscreveram na semana passada uma carta dirigida à ministra da Saúde, na qual alertam para a lista de espera de doentes com problemas cardíacos a necessitar de cirurgia e defenderam a criação de novos centros de referenciação.

Nessa altura, em declarações à Lusa, o diretor de serviço de cirurgia cardiotorácica da ULS São João alertou no entanto para o risco de dispersão de recursos humanos.

Também a presidente da SPC centrou hoje parte da sua reflexão na escassez de recursos, lamentando que para a área de cirurgia cardíaca tenham sido abertas poucas vagas.

Segundo Cristina Gavina, Portugal conta com um total de 19 cirurgiões cardíacos, “estando no Norte cinco ou seis”.

“Necessitávamos pelo menos de 10”, disse.

Num aviso da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) de 29 de outubro, sobre o mapa de vagas por área de especialização e instituição do internato médico, vê-se que para cirurgia cardíaca havia uma vaga para a ULS São José, em Lisboa, e uma para a ULS São João, no Porto.

“Esta situação é preocupante, mas não é muito diferente daquilo que era há um ou dois anos. Ou seja, continua a ser preocupante, o que incomoda é verificarmos que apesar de todos os alertas, nada tem sido feito”, lamentou.

Salvaguardando que nada tem contra o sistema privado, considerando-o até “absolutamente legítimo na resposta complementar ao Serviço Nacional de Saúde (SNS)”, a médica do Hospital Pedro Hispano (Matosinhos) lembrou que muitos cirurgiões que estão no SNS também estão “legitimamente” a trabalhar fora.

“Temos de ter capacidade de fixar estes recursos tão escassos e tão importantes dentro do SNS”, alertou.

Considerou ainda que o número de cirurgias nos hospitais privados é “claramente insuficiente para que possa haver, de forma técnica, capacidade para garantir a qualidade”.

“Sabemos que esses cirurgiões, porque são os mesmos que fazem nos hospitais [públicos], têm treino. O problema são os cuidados pós-operatórios e as pessoas esquecem-se disso”, concluiu.

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