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"Desafio do paracetamol" no TikTok preocupa pediatras: Santa Maria regista aumento de intoxicações voluntárias em adolescentes

IR/CM/Lusa
20-02-2026 16:09h

A Urgência Pediátrica da ULS Santa Maria, em Lisboa, registou um aumento preocupante de intoxicações medicamentosas voluntárias em adolescentes. Dos 232 casos registados nos últimos seis anos, mais de metade ocorreu em 2024 e 2025, com 59 casos num ano e 72 no seguinte, numa tendência sempre crescente.

O alerta foi lançado pela coordenadora da urgência, a pediatra Erica Torres, na sequência da atenção gerada pelo chamado "desafio do paracetamol", promovido nas redes sociais e que incentiva a ingestão deliberada de doses elevadas do fármaco. A médica revelou que, na véspera da entrevista, uma adolescente dera entrada no hospital após ingerir 10 comprimidos de paracetamol, o equivalente a 10 gramas, uma dose potencialmente letal.

Para o pediatra Hugo Rodrigues, as redes sociais, e o TikTok em particular, estão a amplificar comportamentos de risco que antes seriam mais isolados.

A maioria das intoxicações é feita com medicamentos disponíveis em casa. Segundo Erica Torres, os jovens demonstram conhecer as doses tóxicas do paracetamol, provavelmente através de conteúdos nas redes sociais. O comprimido de 500 miligramas é de venda livre, o que facilita o acesso.

Do ponto de vista clínico, 60% dos adolescentes envolvidos já tinham diagnóstico de perturbação depressiva ou ansiosa, mas cerca de 30% não apresentavam qualquer patologia conhecida. A médica sublinha que a maioria dos casos resulta de atos impulsivos — uma discussão com um familiar ou namorado — e não de tentativas de suicídio premeditadas, embora casos mais graves também existam. Ainda assim, rejeita que se trate de meras chamadas de atenção, classificando estes comportamentos como "sinónimo de mal-estar".

Mas quais os sinais de alerta que os pais devem observar no comportamento dos filhos? O pediatra Hugo Rodrigues explica o que não deve ser ignorado.

Os especialistas recomendam que os medicamentos sejam guardados em locais inacessíveis aos jovens, que a gestão de psicofármacos seja feita pelos adultos e que as farmácias reforcem a vigilância na dispensa a menores. Apela ainda a maior supervisão parental do uso da internet, considerando que os números conhecidos representam apenas "a ponta do iceberg" de um problema mais vasto de saúde mental juvenil. Face à facilidade de acesso ao paracetamol de venda livre, o pediatra Hugo Rodrigues defende uma revisão das regras de dispensa deste medicamento, nomeadamente a menores de idade.

 

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