A Federação Nacional dos Médicos (Fnam) classificou hoje o recente concurso para colocação de médicos de família como um insucesso, alegando que foi lançado tarde, levando os novos especialistas a optarem por uma alternativa ao SNS.
“O concurso chegou demasiado tarde e, quando há um atraso prolongado na abertura de vagas, muitos médicos não ficam indefinidamente à espera e saem para o setor privado e para a prestação de serviços”, lamentou a vice-presidente da federação sindical, Joana Bordalo e Sá.
Mais de 60% das vagas para Medicina Geral e Familiar (MGF) ficaram por preencher no concurso de segunda época, que terminou com a ocupação de 50 das 142 abertas, segundo dados a que a Lusa teve acesso.
Na região de Lisboa e Vale do Tejo, a mais carenciada de especialistas desta área, havia 84 vagas abertas para médicos de família e ficaram por preencher mais de 70%, com apenas 24 vagas ocupadas.
Em declarações à Lusa, Joana Bordalo e Sá salientou que para esses números contribuiu ainda a “tentativa desestruturada” do Governo de criar unidades de saúde familiar modelo C, centros de saúde de gestão privada, na “expectativa que alguns recém-especialistas fossem para essas unidades”.
Isso também “contribui para a saída de médicos do Serviço Nacional de Saúde (SNS)", referiu a dirigente sindical, apontando também o “insuficiente número” de vagas abertas, perante a falta de cerca de mil especialistas de medicina geral e familiar no país.
“Em termos absolutos, se tivessem aberto todas as vagas necessárias, de certeza que se iria conseguir reter mais médicos no SNS”, defendeu a vice-presidente da Fnam, alegando que a disponibilização de mais lugares “permite uma maior escolha” do local de trabalho por parte dos novos especialistas.
A dirigente sindical referiu que agora é necessário ver se os colocados assinam os contratos com as Unidades Locais de Saúde (ULS), tendo em conta que, em anteriores concursos, apresentaram contratos a médicos de família que previam um dia por semana (12 horas) de trabalho nas urgências do hospital.
“Houve tentativas de ULS de celebrarem com médicos de família contratos assim. O serviço de urgência não faz parte das tarefas próprias de um médico de família”, realçou Joana Bordalo e Sá, para quem essas situações “colocam em causa a contratação efetiva e os médicos de família não ficam nessas condições”.
“Tendo em conta o insucesso deste concurso, não vai resolver absolutamente nada e vai, se calhar, piorar mais a situação”, tendo também em conta o número de médicos de medicina geral e familiar que vão sair do SNS por aposentação, referiu.
Em 2025, no total dos dois concursos realizados para contratação de médicos recém-especialistas em MGF, foram ocupadas 281 vagas, o que permitiu a atribuição de médico de família a mais 435.550 utentes.
Segundo o portal da transparência do SNS, em novembro de 2025, estavam inscritos nos cuidados de saúde primários mais de 10,7 milhões de utentes, número que tem vindo a aumentar consistentemente desde março de 2024, e cerca de 1,5 milhões não tinham médico de família atribuído.