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MSF denuncia custos devastadores dos cortes norte-americanos a programas de saúde

Lusa
21-01-2026 15:11h

A organização não governamental Médicos Sem Fronteiras (MSF) denunciou hoje custos humanos "catastróficos" um ano após os cortes da administração norte-americana aos programas de saúde e ajuda humanitária, que classificou como uma estratégia baseada em cálculos políticos.

“Enquanto o mundo recupera destes cortes na ajuda, já é claro que foram apenas o primeiro passo da administração [do Presidente norte-americano, Donald] Trump na remodelação da saúde global e da assistência humanitária”, disse Mihir Mankad, Diretor de Políticas e Advocacia em Saúde Global da delegação da MSF nos Estados Unidos, citado em comunicado.

"As diferentes administrações sempre tiveram prioridades e agendas variadas quando se trata de saúde global, mas agora assistimos a um afastamento alarmante do princípio fundamental de que prestar cuidados humanitários básicos, combater epidemias, subnutrição e doenças preveníveis através da vacinação, e apoiar as comunidades mais marginalizadas do mundo são causas nobres", acrescentou.

Embora a MSF não aceite financiamento do Governo dos EUA, Mankad sublinha, no comunicado, que as várias equipas no terreno testemunharam, ao longo de 2025, o impacto “devastador” do afastamento do Governo norte-americano das comunidades, enumerando vários exemplos.

Na Somália, os carregamentos de leite terapêutico foram interrompidos durante meses e o número de crianças gravemente desnutridas admitidas em instalações apoiadas pela MSF aumentou de 1.937 nos primeiros nove meses de 2024 para 3.355 no mesmo período de 2025.

 E o número de mortes, só no Hospital Regional de Baidoa Bay, aumentou 44% no primeiro semestre de 2025, em comparação com o mesmo período de 2024.

Noutro hospital, no Sudão do Sul, os cortes no financiamento interromperam o apoio a 54 funcionários do hospital em junho, deixando lacunas graves nos cuidados maternos, enquanto na República Democrática do Congo foi cancelada uma encomenda de 100.000 'kits' pós-violação, com medicamentos para a prevenção do HIV e de outras infeções sexualmente transmissíveis.

Para a organização humanitária, estes exemplos — e inúmeros outros ao longo do último ano — representam mais do que cortes orçamentais. A MSF aponta uma mudança fundamental na forma como os Estados Unidos se envolvem e imaginam o seu papel no mundo.

 Em setembro passado, a administração Trump lançou a Estratégia de Saúde Global "America First" (América Primeiro), posicionando-se com uma estratégia que reduz o apoio na saúde global.

 A MSF fala de uma abordagem "negociada à porta fechada", que se baseia em acordos bilaterais com os Governos que recebem assistência externa dos EUA, sem a participação da sociedade civil ou das comunidades cuja saúde e bem-estar estão mais em risco.

E acusa a administração norte-americana de "pressionar" os Governos beneficiários a restringir o acesso aos serviços com base em linhas ideológicas, particularmente para as populações marginalizadas e na área da saúde sexual e reprodutiva.

"A alegação de que estes acordos promovem a soberania nacional soa vazia quando, ao mesmo tempo, temos funcionários do Departamento de Estado a dizer abertamente aos países que a assistência global à saúde está condicionada à sua disponibilidade para fechar um acordo de minerais com os EUA", disse Mankad.

“A assistência global em saúde deve ser orientada pela necessidade de saúde pública, por provas médicas sólidas e pela epidemiologia, e não por cálculos políticos grosseiros, exploração económica ou coerção ideológica, concluiu o responsável.

Perante os cortes “ devastadores” de 2025, a MSF denuncia uma reformulação completa do apoio dos EUA em questões de saúde e de ajuda humanitária, e num balanço sobre o impacto destes cortes alerta para as consequências nefastas desta nova abordagem.

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