O médico português Tomás Bandeira defendeu à Lusa que a saúde mental é uma prioridade na resposta à epidemia de Ébola no leste da República Democrática do Congo (RDCongo), onde a doença "destrói famílias e comunidades inteiras".
A trabalhar no terreno em Mongbwalu, Tomás Bandeira, responsável de medicina tropical da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), frisou que a intervenção psicológica da organização no local é prioritária e abrange tanto as equipas médicas como os doentes - estendendo-se desde o momento do internamento até ao acompanhamento posterior à alta hospitalar - assim como as suas famílias.
"Nós sabemos que de facto a doença do Ébola é uma doença que destrói a vários níveis. Destrói vidas, naturalmente, mas destrói famílias e comunidades inteiras" nesta nação vizinha de Angola, alertou.
Por isso, a equipa de saúde mental dos MSF, composta por psicólogos e especialistas, trabalha na criação de redes de apoio familiar e comunitário, explicou.
A taxa de mortalidade próxima dos 50% impacta particularmente os profissionais de saúde, referiu o médico português.
"Acho que nenhum médico, nenhum enfermeiro está preparado, nem está habituado a lidar com esse tipo de situações em que a cada duas pessoas uma morre", observou.
"Ver um doente com Ébola morrer-nos nas mãos é algo que não se esquece", acrescentou.
Para enfrentar a pressão diária e manter a atuação no terreno, o profissional dos MSF defende uma abordagem focada nos casos de sucesso: "Em vez de olharmos para os 50% que morrem, temos que nos agarrar aos 50% que sobrevivem. Cada doente que nos chega é uma nova batalha", declarou.
"Não podemos estar a pensar naqueles que perdemos, mas pensar naqueles que conseguimos tratar e que continuam a fazer sentido para o nosso trabalho aqui", concluiu.
O Diretor Regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) para África, Mohamed Yakub Janabi, disse, em entrevista à Lusa, que a República Democrática do Congo (RDCongo) contabilizava, em 20 de outubro, 9.704 casos confirmados e 4.687 mortes, o que traduz uma taxa de mortalidade de 48,3%.
O Ébola é altamente contagioso e transmite-se através do contacto direto com fluidos corporais de uma pessoa infetada, incluindo sangue e vómito, ou através do contacto com materiais e superfícies contaminadas, como roupa de cama e vestuário.