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Brasileiro que chegou a pesar 310 quilos enfrenta Grande Muralha para cumprir sonho do pai

Lusa
24-10-2026 11:24h

O brasileiro Júlio Mamute, que chegou a pesar 310 quilos e mal conseguia sair da cama, vai participar no domingo numa maratona de 42,195 quilómetros na Grande Muralha da China, concretizando um sonho do pai.

Natural de Recife, no estado de Pernambuco, Júlio, de 36 anos, perdeu cerca de 120 quilos sem recorrer a cirurgia ou medicamentos. Hoje pesa aproximadamente 190 quilos e participa em provas desportivas pelo mundo, após ter passado anos dominado pela compulsão alimentar.

"Em dois anos e meio, eu engordei algo em torno de 120 quilos", contou à agência Lusa, em Pequim, ao recordar o período da pandemia de covid-19, quando se isolou em casa e chegou a ter dificuldades para realizar tarefas básicas.

"Tomar um banho era uma das coisas mais desafiantes da vida. Porque, quando você é muito grande, você acha que vai cair", recordou. "Eu saía do banho suado. Eu saía do banho já querendo deitar. Isso é vida? Claro que não é".

A transformação começou após um episódio que ainda hoje o emociona.

No dia do seu aniversário, a 13 de novembro, nasceu o sobrinho, precisamente à mesma hora em que Júlio nasceu. Interpretou a coincidência como um sinal divino, numa altura em que já começava a perder a esperança de constituir família.

Dias depois, tentou visitar o recém-nascido para lhe entregar um presente, mas não conseguiu sair do automóvel. "Eu fui dominado por um sentimento de impotência. Eu me senti um lixo", disse.

"De que valeu a pena, então, até aqui, a vida toda? Ter empreendido, ter viajado, ter trabalhado, ter-me esforçado para ter alguma coisinha, de que valeu a pena?", questionou.

Naquele dia, decidiu inscrever-se em aulas de hidroginástica.

A experiência levou-o posteriormente à natação, modalidade que considera decisiva para recuperar a mobilidade e começar a emagrecer.

"A natação salvou a minha vida", afirmou.

Chegou a nadar mais de duas horas por dia, repartidas por duas sessões, uma atividade que lhe permitia também afastar-se das distrações e dos hábitos alimentares que procurava abandonar.

"Ali eu não tinha como pegar o telemóvel. Ali eu não tinha como estar pedindo comida", explicou.

Pouco depois de iniciar a transformação, perdeu o pai e, um mês mais tarde, um tio de quem era próximo.

Com receio de voltar aos antigos hábitos, começou a partilhar o percurso nas redes sociais, onde ganhou notoriedade.

O primeiro vídeo que se tornou viral mostrava as dificuldades que enfrentava durante uma viagem de avião, quando outros passageiros não queriam sentar-se ao seu lado.

"Eu passei a documentar tudo o que acontecesse comigo. Se eu tiver que chorar, eu vou chorar. Se tiver que sorrir, eu vou sorrir", explicou.

A corrida surgiu quase por acaso, depois de uma visita à secretaria municipal dos Desportos de São Paulo, onde foi desafiado a participar na tradicional São Silvestre, realizada no último dia do ano.

Na altura, pesava cerca de 220 quilos e nunca tinha percorrido mais de seis quilómetros num treino.

Ao sétimo quilómetro da prova, esteve prestes a desistir.

"Eu deitei no chão", recordou, explicando que recebeu então, através de uma transmissão em direto nas redes sociais, um vídeo da irmã e do sobrinho a incentivá-lo a continuar.

"Eu posso chegar amanhã. Posso chegar arrastando. Mas essa criança vai ter um exemplo, pelo menos, de que vale a pena começar e terminar", afirmou.

Acabou por completar os cerca de 15 quilómetros da São Silvestre e, desde então, participou em provas em Portugal, Argentina e Uruguai, entre outros países.

A passagem pela China tem, contudo, um significado especial.

O pai, nascido no interior de Pernambuco, era apaixonado por geografia e sonhava conhecer o mundo, sobretudo a China e a Austrália.

"Ele foi esse pai que ensina bandeira, capital, todos os países para a criancinha. Sempre que tinha reportagem na China, assistia, me chamava para assistir", acrescentou.

Júlio chegou a prometer-lhe que um dia fariam uma viagem juntos, mas o pai morreu pouco após o filho iniciar o processo de emagrecimento.

"Para mim, ter escolhido aqui a Muralha da China é uma coisa muito afetiva", afirmou.

"É um momento onde eu vou subir a muralha. Nem sei do tamanho do desafio que me enfrenta. Eu confesso isso. Eu só estou indo", acrescentou.

A transformação tem também uma vertente solidária: Júlio associa a perda de peso à doação de alimentos e afirma já ter distribuído mais de duas toneladas, incluindo em Angola, Cabo Verde e no Brasil.

A próxima etapa será Barcelona, onde pretende participar numa corrida ligada aos bombeiros locais e organizar uma nova doação.

Mas o objetivo final é mais ambicioso: perder cerca de 220 quilos relativamente ao peso máximo e completar a maratona de Atenas, na Grécia, associada às origens históricas da modalidade.

"Eu não vou desistir até chegar, até alcançar isso", garantiu.

Questionado sobre o que diria hoje ao homem que chegou a estar praticamente confinado a um quarto escuro, respondeu: "Vale a pena. Vai doer, mas vale a pena".

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