A Associação Portuguesa de Farmacêuticos Residentes (APFR) apelou hoje para uma intervenção no atual modelo formativo destes profissionais, depois de um relatório ter detetado falhas no acompanhamento e enquadramento institucional.
Segundo dados hoje divulgados, os farmacêuticos residentes das especialidades de Farmácia Hospitalar, Análises Clínicas e Genética Humana dizem fazer investigação e estudo “em tempo pessoal”, espalhando a falta de “tempo protegido” em horário de trabalho.
O relatório do Inquérito da Residência Farmacêutica 2026 refere ainda que o mecanismo de notificação de não conformidades e incidentes na formação registou a pior pontuação, sinalizando a necessidade de “reforçar os mecanismos disponíveis para reportar e acompanhar eventuais falhas na formação”.
Face aos resultados obtidos, a ANFR sugere a instituição de tempo protegido – no mínimo duas horas/semana – em horário laboral para estudo e investigação e o reforço da fiscalização e dos mecanismos de reporte, com a realização de visitas conjuntas de idoneidade pela Ordem dos Farmacêuticos e pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) e da criação de canais adequados para denuncia a acompanhamento de incidentes.
Propõe ainda a clarificação do modelo de avaliação, com a publicação das grelhas de avaliação dos módulos e da clarificação da estrutura do exame de especialidade de 2027, assim como o reforço da residência farmacêutica (formação especializada), com um diretor da residência farmacêutica em cada Unidade Local de Saúde.
Sugere igualmente mais valorização e equidade na carreira, com um plano estruturado de recrutamento dos residentes após a conclusão da especialidade, a atualização das tabelas salariais da carreira e a revisão das vias alternativas de especialização, para maior equidade no acesso à especialização.
A associação considera que a correção destas assimetrias “é essencial para garantir a qualidade da formação especializada em farmácia e para assegurar que os futuros especialistas dispõem das condições necessárias ao exercício das suas funções no Serviço Nacional de Saúde".
Segundo os resultados hoje divulgados, por especialidade, a Farmácia Hospitalar, que concentra o maior número de residentes, apresenta assimetrias entre ULS, com relatos de “elevada sobrecarga assistencial” associada à necessidade de colmatar necessidades de recursos humanos, em detrimento da formação.
Em Análises Clínicas, os profissionais ouvidos manifestam incerteza relativamente ao exame final de 2027 e defendem a realização de “auditorias práticas” que permitam aferir se a idoneidade teórica dos laboratórios corresponde às respetivas valências.
Na Genética Humana, apesar de uma avaliação mais positiva da relação com os orientadores, é apontada a falta de orientações uniformes para a elaboração dos relatórios de estágio.
Por regiões, no Norte os dados mostram uma “elevada capacidade técnica instalada”, mas com “sérias queixas” de falta de tempo laboral para produção científica e reduzida articulação entre as várias ULS e no Alentejo o alerta vai para o “rácio inadequado de resdentes/especialistas”, com relatos de residentes a cobrir postos sem supervisão direta e falta de apoio financeiro para deslocações a estágios obrigatórios fora da ULS.
Em Lisboa e Vale do Tejo o foco está nas assimetrias no acolhimento e na necessidade de fiscalizar a abertura de vagas e na urgência em “centralizar e gerir de forma transparente” os estágios externos e, na região Centro, é apontada a urgência da criação de “horas protegidas” de estudo e de mecanismos de avaliação dos orientadores pelos residentes.
No Algarve os dados mostram dificuldades de integração e atribuição de tarefas extra sem cotação formal, assim como um “bloqueio de acesso” a reuniões de comissões técnicas e críticas relativamente à permanência de “vias alternativas” de especialização.