SAÚDE QUE SE VÊ
CANAL S+

"O SNS está mais refém de corporativismos e políticas do que das necessidades da população”

ALS
17-09-2026 08:00h

No programa Efeito Placebo, Dora Franco, da Ordem dos Enfermeiros, alertou para os grandes desafios que sustentam a fragilidade do Serviço Nacional de Saúde, desde a suborçamentação crónica e a perda de confiança dos portugueses até ao bloqueio corporativo que impede os enfermeiros de assumirem novas competências.

A assinalar os 47 anos do Serviço Nacional de Saúde (SNS), a Presidente do Conselho Diretivo Regional do Sul da Ordem dos Enfermeiros, fez uma radiografia crítica ao estado do sistema público, apontando três eixos centrais de fragilidade: o subfinanciamento, a crise de confiança dos cidadãos e a falta de investimento estrutural nos recursos humanos.

A nível financeiro, Dora Franco denunciou que existe "constantemente uma suborçamentação no que diz respeito à verba destinada à saúde" e defendeu a urgência de um pacto nacional que crie estabilidade. "Não temos ainda o Serviço Nacional de Saúde blindado àquelas que são as oscilações políticas governamentais. Acho que seria fundamental termos um plano seguido de forma linear", afirmou durante a sua intervenção.

A crise de confiança e o avanço da privatização

O segundo grande alerta prende-se com a perceção dos utilizadores e o crescimento do setor privado. Citando dados e estudos recentes, destacou que cerca de 60% dos portugueses revelam preocupação com a sustentabilidade do serviço público e 35% já recorreram a seguros de saúde ou ao setor privado.

Para Dora Franco, o avanço da privatização não surge por acaso, mas sim como consequência direta da perda de capacidade de resposta do Estado. "Se nós continuarmos a encontrar subterfúgios para melhorar o Serviço Nacional de Saúde, acho que o caminho vai ser sempre nesse sentido da privatização", alertou, exemplificando com o facto de haver "um hospital privado que é dos que faz mais partos em Portugal". A convidada frisou ainda o clima de desmotivação nas equipas: "O que nós percebemos no terreno é um clima de desesperança e de perda de confiança."

Tecnologia versus pessoas e as barreiras corporativas

No capítulo dos recursos humanos, Dora Franco criticou o desequilíbrio entre o investimento em equipamentos e a valorização das equipas multidisciplinares. "Ao abrigo do PRR, adquiriram-se robôs cirúrgicos e uma série de infraestruturas, mas investir seriamente nos recursos humanos continua a ser uma lacuna significativa."

Abordou também a estagnação no alargamento das competências dos enfermeiros — nomeadamente na gestão de doenças crónicas e no acompanhamento de gravidezes de baixo risco —, apontando o dedo aos bloqueios que impedem que o que está no papel passe à prática.

"O Serviço Nacional de Saúde é das pessoas, mas às vezes tenho a sensação de que pertence a todos, menos aos portugueses", lamentou, concluindo de forma perentória sobre os motivos deste bloqueio: "Não avança porquê? Há corporativismos, há lobbies, há interesses. Neste momento, o Serviço Nacional de Saúde acaba por estar mais refém de alguns corporativismos e de algumas medidas políticas e não tanto daquilo que são as necessidades da população."

MAIS NOTÍCIAS