O aumento de casos de AVC entre jovens na Beira está a preocupar profissionais de saúde e autoridades moçambicanas, que apontam o consumo indiscriminado de estimulantes sexuais e bebidas energéticas como fatores associados ao agravamento de doenças cardiovasculares.
No Hospital Central da Beira (HCB), na província de Sofala, principal unidade sanitária da região centro do país, os médicos relatam um aumento do número de pacientes mais jovens a dar entrada com Acidente Vascular Cerebral (AVC), muitas vezes com sequelas incapacitantes.
"Se compararmos entre janeiro e junho de 2025, foram atendidos 26 doentes com AVC. Neste ano, no mesmo período, já atendemos 31", afirmou à Lusa o diretor do Serviço de Urgência e Emergência do HCB, Benedito Hugo.
Segundo o médico, a hipertensão arterial continua a ser o principal fator de risco, mas outras condições e comportamentos contribuem para aumentar a probabilidade da doença, entre os quais diabetes, obesidade, tabagismo, consumo excessivo de álcool, sedentarismo, stress, ansiedade e uso de estimulantes.
O especialista alertou, contudo, para outros riscos: "O uso continuado e sem prescrição médica de estimulantes sexuais e o consumo excessivo de bebidas energéticas podem agravar doenças cardiovasculares preexistentes e aumentar a probabilidade de complicações graves".
Benedito Hugo acrescentou que um número crescente de doentes jovens fica com limitações permanentes, afetando a sua capacidade de trabalhar e a qualidade de vida. Muitos pacientes permanecem internados durante semanas ou meses devido às sequelas provocadas pela doença, situação que, segundo o médico, exerce pressão sobre a capacidade de resposta hospitalar.
Embora disponha de médicos internistas, fisioterapeutas e serviços de reabilitação, o Hospital Central da Beira ainda não tem uma unidade especializada para tratamento do AVC. O especialista defende, por isso, a adoção de hábitos de vida saudáveis, incluindo atividade física regular, alimentação equilibrada e redução do consumo de álcool, tabaco e drogas.
As preocupações são partilhadas pelos serviços de fiscalização, nomeadamente pelo chefe do Departamento de Inspeção e Fiscalização provincial, Bello Castro, que defendeu um controlo mais rigoroso da comercialização de estimulantes sexuais e bebidas energéticas, sobretudo nos mercados locais.
"Os consumidores pensam que para aguentar o trabalho e cansaço, basta tomar alguns destes produtos. Mas podem representar risco para a saúde, principalmente quando tomados com frequência e sem moderação", afirmou.
Segundo Bello Castro, muitas bebidas energéticas contêm níveis elevados de cafeína ou açúcar que, em excesso, podem elevar a pressão arterial e aumentar o risco de complicações cardiovasculares, sobretudo em pessoas já vulneráveis.
O responsável alertou também para a combinação de bebidas energéticas com álcool e estimulantes sexuais, prática que considera "cada vez mais comum entre jovens".
A Inspeção das Atividades Económicas em Sofala admite igualmente dificuldades no combate à venda clandestina destes produtos.
O inspetor provincial Bela Joaquim afirmou que as ações de fiscalização têm identificado produtos com rotulagem inadequada, informações apenas em língua estrangeira e dúvidas quanto à validade ou origem.
"Foram instaurados 16 processos de infração, que resultaram em multas avaliadas em cerca de um milhão de meticais. No mesmo período foram apreendidos e destruídos aproximadamente 200 mil produtos fora do prazo de validade, além de bebidas alcoólicas proibidas", afirmou, reconhecendo que muitos estimulantes sexuais continuam a ser comercializados informalmente, incluindo em estabelecimentos sem autorização legal.
Para o sociólogo Rildo Rafael, o aumento dos comportamentos de risco está relacionado com mudanças nos padrões de consumo, influenciadas pela publicidade, pressão social e crescente presença das redes sociais, sendo que o aumento do consumo de refrigerantes, bebidas energéticas e alimentos ultraprocessados contribui "para o agravamento dos problemas de saúde".
O investigador considera que o apelo social associado ao uso de estimulantes sexuais como forma de demonstrar virilidade ou melhorar o desempenho sexual constitui igualmente um desafio crescente para a saúde pública.
"É fundamental investir em educação, orientação familiar, bem como na participação ativa da família, da escola, das comunidades e das autoridades e no reforço de valores positivos, fortalecendo a autoestima dos jovens e criando ambientes que favoreçam escolhas responsáveis", concluiu.