Uma organização avançou hoje que os femicídios aumentaram em Israel nos últimos três anos, depois de o Governo ter facilitado o porte de armas pelos cidadãos, na sequência do ataque do Hamas em 2023.
De acordo com dados da organização dedicada à prevenção da violência de género em Israel Fórum Michal Sela, 31 mulheres foram assassinadas nas suas casas em 2025, o que representa um aumento de 82,3% de femicídios em relação ao ano anterior (17).
Por outro lado, os assassínios cometidos com armas de fogo aumentaram 1.600%.
Esta tendência, com 12 homicídios de mulheres já registados em 2026, continua a crescer, referiu a organização não-governamental (ONG) israelita.
"É uma panela de pressão que já está a transbordar", afirmou, fundadora e diretora executiva da ONG, Lili Ben Ami, citada pela agência de notícias espanhola EFE.
"Só no último ano, recebemos cerca de 7.500 chamadas para a nossa linha de apoio, quase o dobro do número que recebíamos antes de 07 de outubro", data do ataque do grupo islamita palestiniano Hamas ao território israelita, quando matou 1.200 pessoas e fez 250 reféns, dando início à guerra de Gaza.
A responsável adiantou ter sido observado "um aumento inequívoco" da violência doméstica em todos os indicadores analisados.
"Mas ninguém fala sobre isso", denunciou Ben Ami, que designou a organização que lidera com o nome da própria irmã, assassinada pelo companheiro em 2019.
Para Ben Ami, as consequências do aumento do número de licenças de porte de armas começaram a fazer-se sentir desde os primeiros meses da guerra.
"Antes de 07 de outubro, talvez uma ou duas das mulheres assassinadas morressem por ferimentos de bala. Depois, mais de metade foi morta a tiro", referiu.
A ONG, contou, começou a receber testemunhos que não existiam antes.
"As mulheres disseram-nos: 'O meu marido está a ameaçar-me, diz que vai pedir uma licença para porte de arma'. Algumas até nos enviaram fotografias do formulário de pedido que ele lhes mostrou para as intimidar", relatou a diretora do Fórum Michal Sela.
Outras relataram que os parceiros, mobilizados como reservistas na Faixa de Gaza ou no Líbano, estavam a utilizar armas militares em casa como instrumento de intimidação.
Para Ben Ami, o aumento da violência deve-se a uma combinação de fatores: 'stress' pós-traumático de alguns reservistas, mas também incerteza, dificuldades económicas e ansiedade acumulada.
O Fórum Michal Sela recomendou reforçar os controlos antes da concessão das licenças, incluindo a consulta de mulheres identificadas como vítimas de alto risco (cerca de dez mil recebem assistência dos serviços sociais por este motivo), mas a proposta foi recusada.
Em Israel, a lei não reconhece um direito universal ao porte de armas, sendo obrigatório demonstrar necessidade, cumprir os requisitos de idade e residência, apresentar atestados médicos e passar num teste de tiro.
Os candidatos devem também ter servido no exército ou residir em determinadas áreas.
No entanto, depois do ataque do Hamas, o Governo israelita simplificou o processo, o que levou a um aumento expressivo dos pedidos.
Só no primeiro ano e meio, desde outubro de 2023, foram emitidas 217 mil novas licenças de porte de armas (numa população de 10 milhões de pessoas), de acordo com dados apresentados em junho de 2025 ao parlamento israelita.